Criadores e criaturas
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 08 de agosto de 2012
Mariana Trigo <br> TV Press 
Mesmo com o controle absoluto da opinião e dos atos de todos os personagens em um folhetim, muitas vezes os autores criam um específico para ser seu alter ego. Estes personagens servem para introduzir a visão do novelista ao manifestar ideias, criticar ações mostradas na obra ou mesmo avaliar os demais personagens. Outros autores, no entanto, não chegam a introduzir alter egos em novelas, mas colocam personagens que expressam uma dubiedade de pensamentos e contradições para provocar uma inquietação ética ou moral nas histórias.
É o caso de Débora Falabella, a Rita/Nina, de ''Avenida Brasil''. A mocinha ambígua de João Emanuel Carneiro tem um toque de vilania em seus atos vingativos e psicóticos, o que a contradiz como heroína da trama das nove da Globo. ''Sempre tive uma queda pelos vilões. Eles são bem mais interessantes'', despista o autor.
Já para Lauro César Muniz, autor de ''Máscaras'', da Record, diversos personagens são autobiográficos em sua trajetória de mais de 40 anos como autor. Como o Jordão, vivido por Juca de Oliveira em ''Espelho Mágico'', o João Maciel de Paulo Gracindo em ''O Casarão'' e, principalmente, o Antônio Dias, interpretado por Tarcísio Meira em ''Escalada''.
O autor só voltou a criar personagens autobiográficos ou como seu alter ego em ''Cidadão Brasileiro''. Foi com o Antônio Maciel, vivido por Gabriel Braga Nunes, um herói ambíguo que se dividia entre o sonho profissional e a oportunidade de ganhar dinheiro fácil. ''Em 'Máscaras', o personagem que tem um toque de alter ego é o Zezé, do Roberto Bomtempo. Ele dialoga com o invisível. Mas, em geral, acho que personagens porta-vozes do autor são chatos, discursivos e donos da verdade. Prefiro as contradições'', salienta Lauro.
No entanto, Walcyr Carrasco, que assina o ''remake'' de ''Gabriela'', não pensa assim. ''Todos os personagens são reflexo de mim mesmo. Inclusive os vilões'', teoriza Walcyr. Para o autor, a trama que mais o retratou foi ''Chocolate Com Pimenta'', por meio de dois personagens distintos. ''Eu era um pouco do Ludovico, do Ary Fontoura, que buscava a ética e era um sonhador. Mas também era o mocinho Danilo, do Murilo Benício, com aquela preguiça toda. Sou tão preguiçoso...'', assume.
Para Ricardo Linhares, supervisor de texto de ''Cheias de Charme'', da Globo, assim como para Gilberto Braga, com quem Ricardo normalmente assina a co-autoria das tramas, os personagens autobiográficos estão diluídos por vários papéis nos folhetins. ''Não faço terapia no trabalho, mas me identificava com o Pedro e a Marina, protagonistas de 'Insensato Coração' porque eram positivos, francos e honestos'', avalia Ricardo. ''Me identifico com muitos, menos com os machões'', frisa Gilberto.
Já Manoel Carlos quase sempre coloca alter egos nas histórias. Em ''Páginas da Vida'', por exemplo, o autor expressava suas ideias por meio do sensato Tide, o patriarca vivido por Tarcísio Meira. Já em ''Laços de Família'', as ideias do autor eram transmitidas pelo refinado Miguel, de Tony Ramos. ''Também me mostro muito com as minhas Helenas. Todas têm um pouco de mim'', observa.
Marcílio Moraes é outro autor que também identifica alguns alter egos em boa parte de seus trabalhos na tevê. Em ''Ribeirão do Tempo'', por exemplo, o personagem que mais se ajustava ao discurso do novelista era o Professor Flores, um ex-professor de História idealista que foi torturado na ditadura, interpretado por Antônio Grassi. ''Já o meu gosto pelo álcool foi representado pelo Querêncio (vivido por Taumaturgo Ferreira). E o Joca (de Caio Junqueira) trazia meu melhor lado: o romantismo e a ingenuidade'', esmiuça Marcílio.
Outros eus
Aguinaldo Silva é um dos autores que mais utilizam personagens específicos para retratar o que pensam. Tanto que Giovanni Improtta, papel interpretado por José Wilker em ''Senhora do Destino'', já existe há mais de 30 anos nos romances do autor. O personagem, um bicheiro que preside uma escola de samba, ganhou popularidade na trama das nove exibida em 2004. José Wilker também se identificou tanto com o personagem que decidiu adaptar o romance para o cinema no ano passado. Protagonizado e dirigido pelo ator, o longa deve estrear em 2013. ''Me enxergo um pouco nele, que tem muita coisa de personagens saídos da minha adolescência na década de 1960 e que hoje são figuras da nossa política e das artes no Brasil'', avalia Aguinaldo. Já em ''Duas Caras'', o autor expressou opiniões por meio da personagem Gioconda, vivida por Marília Pêra. ''Ela falava muito do que eu pensava'', admite, com sua habitual simpatia.


