Criadores e criaturas
Rubens Pileggi Sá
De Londrina
Especial para a Folha 2
Para o mundo da arte, o fim do século vinte se caracteriza pela qualidade de algumas obras, diferente do seu começo até os anos 60, quando o destaque eram os autores das obras. Podemos iniciar falando em artistas como Marcel Duchamp ou seu contemporâneo Pablo Picasso e estender nossas observações até Joseph Beuys, na Alemanha, Andy Warhol nos Estados Unidos, Lygia Clark ou Hélio Oiticica no Brasil. Mas dos anos 70 em diante e, particularmente depois do meio dos anos 80, não surgiram nomes como os que até então havia. Ninguém se enveredou por territórios que já não tivessem sido descobertos ou fez experiências que fossem exatamente novidades.
O que tem surgido depois dessa época está muito mais ligado a referências a certas obras do que, propriamente, a certos autores. Essas acabam se tornando símbolos de época, ligadas ao contexto de onde surgiram, acima do nome de seus realizadores e indiferentes ao trabalho que eles continuaram a desenvolver. Uma obra como Os cem, por exemplo, consagrou o nome da artista Jac Leirner com sua escultura feita de dinheiro, à época da inflação, criando um efeito ao mesmo tempo surpreendente, intrigante e engajado, mas em contrapartida ela nunca conseguiu superar este trabalho, como se fosse também para a artista a aplicação de um verdadeiro xeque-mate.
Muita gente tem criado verdadeiras obras-primas que não rendem o sucesso devido porque a idéia corrente é que a personalidade do autor está acima de sua criatura e não do que são capazes de alcançar com sua expressão. Além do eixo São Paulo / Rio, ou Londres / Nova Iorque, muita coisa de excelente qualidade tem aparecido debaixo do sol e por falta de estímulo e de crítica adequada, são pouco valorizadas, desconhecidas do público.
Pessoas com extremo potencial e personalidade jamais deixarão de existir e criar, pelo bem da cultura, mas aquela arte centralizada em eixos previamente definidos, em nomes de pessoas mais ou menos excêntricas, nos heróis redentores, jamais será parâmetro para o julgamento e validade das grandes obras.
A partir de hoje, a coluna Alfabeto Visual passa a ser publicada às quartas-feiras neste espaço.





