Criadora dos "Teletubbies" trabalha com brasileiros
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quinta-feira, 05 de agosto de 1999
Por Júlio Gama 
São Paulo, 06 (AE) - A mais bem-sucedida produtora independente inglesa, Anne Wood, uma elegante senhora de 61 anos
está no Brasil desde domingo. Veio participar do Encontro Latino-Americano sobre TV de Qualidade, que acabou ontem, e conhecer o Projac, a cidade cenográfica da Rede Globo, no Rio.
A produtora aproveitou para anunciar que vai filmar no ano que vem em parceria com o diretor Cao Hamburger, criador e diretor do "Castelo Rá-Tim-Bum". "Será uma mistura de ficção e realidade sobre o cotidiano de um menino brasileiro", adianta. Na Inglaterra, Anne já desenvolve um projeto com outra brasileira, ¶ngela de Castro. "É um programa para crianças, mas para daqui a algum tempo."
Anne é dona da Ragdool Productions Ltd., criadora e realizadora do "Teletubbies", uns dos maiores sucessos já produzidos na Inglaterra, ao custo aproximado de US$ 14 milhões, exibido em 120 países, traduzido para 21 idiomas, com milhões de bonequinhos originais vendidos em lojas de todo o mundo e outros tantos milhões de réplicas malfeitas oferecidas nos cruzamentos das grandes cidades brasileiras.
Anne já havia trabalhado com Cao em 1995, quando o diretor realizou o episódio brasileiro "O Menino, a Favela e as Tampas de Panela", da série "Open a Door", que reuniu produções de 33 países. "O programa do Cao foi o melhor da série", diz. Entusiasta da arte brasileira, Anne elogia também o trabalho do artista plástico Tunga, com quem sua filha mais nova trabalhou na Inglaterra. "A arte contemporânea brasileira é excitante", avalia.
Em breve, a TV Cultura deve começar a exibir outra série produzida pela Ragdool. "Tots TV" passa-se com três crianças pequenas que brincam e se comunicam rompendo a barreira da língua. Pelo conceito da série, duas crianças falam o idioma do país em que é exibida e a terceira fala uma língua diferente. No Brasil, a terceira criança vai falar espanhol.
Ao lançar o "Teletubbies", há dois anos, Ane foi criticada por especialistas britânicos, para quem as crianças menores de 3 anos não deveriam ser público-alvo de um programa de TV. "Quem criticou não entendeu o programa", diz. "Mas quem era pai de crianças de 2, 3 anos gostou muito e mandou cartas para a BBC elogiando a série." Segundo Anne, atualmente o "Teletubbies" não é mais criticado na Inglaterra. "O problema é que em muitas casas os pais não têm tempo para os filhos e jamais desligam a TV, mas é preciso separar programas bons de programas ruins."
De acordo com Anne, o sucesso da série está no bom humor de seus personagens. "Os "Teletubbies" fazem as crianças pequenas rirem, elas gostam umas das outras, são fraternais", define.
Para chegar ao conceito dos quatro personagens - Tinky Winky, Dipsy, Laa-Laa e Po -, observadores da Ragdool acompanharam o dia-a-dia de crianças pequenas durante três meses. A produtora teve cadastradas 56 famílias que forneciam vídeos caseiros com atitudes espontâneas das crianças. "Não chamo isso de pesquisa, porque você iria supor que saberíamos o que estávamos procurando", diz. "Na verdade, nunca sabemos o que sairá desses estudos." Anne afirma que mais importante do que repetir as ações das crianças é entender as suas percepções.
A produtora não sabia que os humoristas do programa semana "Casseta e Planeta" mantêm um quadro em que imitam os personagens da série para fazer piadas sobre governo, polícia ou quem for a bola da vez. "Acho muito engraçado porque na Inglaterra e na Holanda fazem o mesmo", conta.
O que incomoda Anne é a cópia da sua animação. Há alguns meses a TV mexicana vem exibindo uma série com personagens idênticos e nomes semelhantes. "Ficamos muito tristes com isso, porque é uma maneira cínica de enganar as crianças", protesta. "Eles estão usando a TV na barriga dos personagens para vender produtos infantis e isso é imoral." Ela diz estar muito satisfeita com a qualidade da adaptação que a TV Globo está fazendo do "Teletubbies".


