Quando o maestro Othônio Benvenuto chegou a Londrina, em 1976, tinha uma proposta: tirar a orquestra da Universidade Estadual Londrina do papel - estava prevista a criação de uma orquestra e um coro desde o primeiro estatuto da entidade - e transformá-la em realidade. O maestro vinha com uma bagagem extraordinária - oboísta, regente por 12 anos da Banda Sinfônica do Corpo de Bombeiros do Rio de Janeiro (que completou 100 anos em 1996), professor titular da Universidade Federal de Santa Maria (RS), só para citar algumas atividades - e muito entusiasmo pelo desafio.
Para concretizá-lo, o maestro levou praticamente oito anos. Foi um processo lento, gradativo e sistemático. Benvenuto reativou o Coral da UEL, criou um coro infantil, o Coro Piás, e transformou um núcleo de músicos que acompanhavam os coros em uma orquestra sinfônica, hoje reconhecida como a melhor orquestra sinfônica universitária do País.
Com o apoio e o respaldo do então Marco Antônio Fiori - hoje, presidente da Sociedade Amigos da Orquestra Sinfônica da Universidade Estadual de Londrina (Osuel) - Benvenuto enfrentou críticas, lutou e venceu. Depois de quatro anos, deixou a regência da orquestra para se dedicar a outras atividades. Mas não deixou de acompanhar o crescimento de sua ‘‘cria’’, que chega agora aos 15 anos de existência. Em entrevista à Folha2, Benvenuto fala da criação da orquestra, das dificuldades que enfrentou e apela para que a comunidade londrinense valorize cada vez mais o projeto.
Foi difícil criar a Orquestra da Universidade Estadual de Londrina?
Para mim foi fácil porque minha formação é instrumental. Eu vim trabalhar com voz, com coro, praticamente depois que cheguei a Londrina. No Rio de Janeiro, trabalhei sempre com instrumento. Então me senti muito à vontade, aceitei o desafio com muita garra. Senti também o entusiasmo total dos jovens, pessoas que estavam por aqui sem, porém, lugar para tocar. O fato é que começamos os trabalhos formais no dia 14 de março de 1984 e, no final daquele ano, estreamos. Nós mesmos fazíamos os grandes arranjos, ficaram memoráveis para o povo londrinense os Concertos de Outono, no Zerão, cheios de gente, antes da construção do anfiteatro. Havia muito entusiasmo, muita loucura divina naquela época.
Como foi a seleção de músicos?
Foi de uma forma atípica da que ocorre nas grandes orquestras. Mas não era novidade para mim porque já tinha ocorrido algo parecido comigo no Rio de Janeiro, quando tive que refazer a Banda Sinfônica do Corpo de Bombeiros. Numa famosa fase da história política do Rio quando, na briga do então governador Carlos Lacerda com o presidente da República João Goulart, a Banda Sinfônica ficou reduzida a dois componentes: o maestro e um músico. Parti, então, praticamente do zero e refiz a banda, uma das maiores do Brasil. Londrina, por sua vez, era uma cidade que possuía muitos músicos. Mas era só piano, piano, piano...Estava apenas nascendo o movimento de violinos com uma professora que Londrina não pode esquecer, a Regina Grossi. Hoje, ela é violinista da Osuel. Então nós partimos não para recrutar músicos já existentes, e sim, na busca do potencial que cada um tinha a desenvolver. A universidade foi muito aberta, me deu inteira liberdade para fazer o que eu achava que deveria. Coloquei jovens de 12, 13, 14 anos na orquestra. Todos sonhavam ser músicos mas nunca tinham visto um oboé, uma trompa, um fagote. Aí começamos um aprendizado. Foi assim que crescemos.
O senhor pegou jovens inexperientes na área musical e transformou em instrumentistas de uma orquestra?
Exatamente. Eu já vinha trabalhando com eles no Conjunto Música. Mas a partir da solicitação do Fiori, nós encaminhamos o projeto da orquestra de uma maneira mais objetiva e formal. Estabelecemos horários de estudos, de ensaios e fomos chamando as pessoas da comunidade, um chamando o outro. Formamos um efetivo e inauguramos a orquestra com dois concertos no Ouro Verde, porque não comportava todo mundo em um só dia.
A orquestra acabou revelando talentos como o Roney Marczak...
Sim. O Roney e outros que estão aí, fazendo sucesso, na Europa e Brasil, saíram da orquestra. Tocavam piano, violão... Um exemplo marcante, o Pedro Paiva Garcia Sá entrou na Orquestra da UEL com 14 anos e se tornou um do maiores timpanistas do Brasil. Hoje ele é o primeiro timpanista da Sinfônica Brasileira. Todos tinham uma dedicação fora do comum.
E as críticas...
Sempre existiram. Inclusive às vezes criticavam porque fazíamos aqueles arranjos à maneira de arranjadores da TV Globo. Você vai dar bola para isso? Não interessa o que pessoas desinformadas dizem. Quando foi criada a orquestra, pessoas que nunca deveriam ter se pronunciado achavam que, oh, a UEL tinha outras prioridades... Às favas! O que importa é que Londrina há muito tempo necessitava de uma orquestra. A cidade tinha um movimento de teatro excelente graças à liderança da Nitis Jacon, tinha um movimento de dança. Faltava a música. Aliás, hoje temos escolas públicas de teatro e dança. Mas ainda não temos uma escola pública de música. Quer dizer, criança pobre não pode estudar música, porque não pode pagar. As aulas de música são muito caras. Eu sei, sou dono de escola particular. É deplorável. Por que a prefeitura não acorda para esta realidade? Tem mais um problema: a orquestra está aí. Mas onde estão os violinistas, os violoncelistas, os músicos que a alimentarão no futuro? Não existem. Este é um dos meus dissadores... não ter sido criada uma escola municipal de formação de instrumentistas no momento em que se criava uma orquestra.
Por que o senhor saiu da Orquestra?
Naturalmente, quando você faz uma coisa que exige muito estudo e dedicação, sempre existem aqueles que questionam...Eu acredito que tenha sido questionado por algum motivo qualquer. Talvez por princípios e interesses escusos...
Quer dizer que houve interesse na sua saída?
Não tenha dúvidas. Depois aquilo foi escancarado. E, deploravelmente, uma pessoa que foi nefasta para a orquestra foi o Carlos Roberto Appoloni, então vice-reitor, e com o aval do Jorge Bounassar, reitor na época.
Houve ingerência para que o senhor saísse?
Tranquilamente, principalmente do Appoloni. Porque a orquestra é da Casa de Cultura e os órgãos suplementares são dirigidos pelo vice-reitor. Não houve interesse em levar adiante. Nós trabalhávamos no Edifício Fuganti, extremamente inadequado para encher de crianças e músicos. Um dia, invadi o gabinete do reitor... Invadi, com orquestra, coral e tudo, querendo mudanças. Resultado, paguei dois anos como judeu errante, sem sede para ensaiar os músicos e o coral. Até que fomos para a Selaria Estrela (antiga sede do Departamento de Música, na Rua Benjamin Constant, já demolida), ainda aos pedaços. Fomos ajeitando pedacinho por pedacinho. Mas, na realidade, o que aconteceu é o seguinte: eu não podia fazer concessão de natureza profissional. Esta minha linha de trabalho era uma coisa que não interessava a certas pessoas da administração na época. Só que eu não ia mudar. Manda quem pode, obedece quem precisa, né? Eles mandaram e eu não obedeci. Eu não precisava, fiz tudo para ser demitido por justa causa. Por que eles não me demitiram quando eu invadi o gabinete do reitor? Deviam ter me demitido...
O senhor acredita que não havia interesse em continuar com a orquestra?
Não, não havia interesse em apoiar a orquestra do Benvenuto.
Por que era uma criação da administração anterior?
É possível que sim. Havia politicagem e falta de competência também. Me chamavam de não-engajado. Eu não sou político nem politiqueiro. Sou um mestre-de-obras que sabe construir sonoridades. Sou maestro, sou regente. Não abri mão, não capitulei.
Hoje, como o senhor avalia o trabalho da orquestra e seu crescimento?
A orquestra enfrentou períodos difíceis. O maestro Gramani (José Eduardo Gramani, que assumiu a orquestra em substituição a Benvenuto), excelente músico, tentou fazer alguma coisa mas tudo era difícil, ele enfrentou os mesmos problemas que eu... A orquestra quase acabou, transformou-se em partes, grupos camerísticos. Passou um tempo sem evoluir em nada. Com a Cláudia Feres começou a se realinhar, vislumbrou-se um futuro. A partir daí, o caminho foi brilhante. Principalmente na atualidade, com o Norton Morozowicz. Para nossa tranquilidade no futuro, temos o Norton à frente e um grupo de londrinenses, a imprensa e todo mundo, envolvidos na sua manutenção. E também a administração da UEL dando um apoio concreto. Os tempos são difíceis mas é uma dificuldade superável. O Jackson (Proença Testa, atual reitor da UEL) foi muito feliz em ter instituído a produtividade aos músicos, senão hoje não teríamos orquestra, os músicos não teriam como sobreviver. Eles são profissionais...
Em termos de trabalho, não há, então o que criticar?
De maneira nenhuma. Eu acho que o caminho é este. Com a presença do Norton aqui, a orquestra deu um pulo enorme, porque ele conhece o métier. Estão desenvolvendo arranjos, peças antológicas do repertório brasileiro e internacional, peças incluindo sempre o coral - há mais comunicação com o público quando se junta coro e orquestra. E, você vê, infelizmente o coral praticamente acabou. Esteve aí uma regente que quase acabou com ele. O grande Coral da UEL, que viajava a América Latina toda, gravava, ganhava concurso, ficou aí, perdendo tempo. Agora está novamente se levantando... O Norton está tentando juntar o Coral com a Orquestra.
Dá saudade, maestro?
Durante todo este tempo eu me ocupei intensamente com outras coisas, fiquei muito envolvido. Eu tenho muito aquela noção de dever cumprindo. Na verdade, eu tenho boas lembranças.
Que conselho o senhor daria aos músicos que estão hoje na Osuel?
Gostaria é de dar um conselho à imprensa e a toda comunidade, para que fiquem atentos em relação à orquestra. O que fizeram, não aprovando os dois projetos da orquestra na Lei de Incentivo (Lei Municipal de Incentivo à Cultura) foi deplorável. Não dá para entender os critérios, já que foram aprovados projetos que buscam lucros e deixaram de fora um projeto do porte da orquestra, que beneficia milhares de pessoas... Temos que ficar de olho em coisas assim. É preciso também criar condições para que o maestro Norton receba um salário digno da categoria dele. Aliás, o problema do Norton ainda não está resolvido, na questão da sua efetividade na UEL. Ele deveria ser, no mínimo, professor titular do departamento de Música. Ele era professor titular da Universidade de Goiânia, por que aqui ainda não? Já aos músicos - que também precisam receber salários dignos á- peço que continuem como são, estudiosos, maravilhosos e que tenham paciência nos momentos difíceis, nunca deixando de lutar.

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