Criador do "Mandrake" e "Fantasma" queria restituir esplender do passado
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segunda-feira, 15 de março de 1999
Por Jotabê Medeiros 
São Paulo, 16 (AE) - Lee Falk, que morreu no sábado, aos 87 anos, em Nova York, vítima de um ataque cardíaco, criou os heróis de duas gerações, "Mandrake" e "Fantasma". "Mandrake", um dândi de cartola cheio de truques que nunca usa a força para fazer cumprir a Justiça. E o "Fantasma", um combatente do crime soturno e angustiado pela sua herança shakespeariana e fatalista.
Um usa os músculos, outro usa os punhos. Um usa a inteligência, outro a argúcia. Um está vestido para uma festa, outro para uma guerra. Ambos são aristocratas vingadores, em busca de restituir a um mundo que beira a barbárie algo da ordem e do esplendor do passado perdido.
Os que preferiam "Mandrake" são em muito maior número. O cineasta Alain Resnais buscou, com O Ano Passado em Marienbad, recriar os enquadramentos da historieta criada por Falk e desenhada pelo genial Phil Davis. Federico Fellini, obcecado pelo mago de Falk, chegou a produzir fotos com Marcello Mastroianni como "Mandrake" e Cláudia Cardinale como sua companheira, a princesa Narda.
Já o "Fantasma", embora não tão cultuado, nasceu da admiração de Falk pela mitologia greco-romana e também de sua reverência ao teatro - que foi, até certa altura da vida, a atividade principal do roteirista e escritor. O juramento de Kit Walker (alter ego do Fantasma) é feito com uma caveira hamletiana na mão. Tudo é teatro no "Fantasma": as fossas que usa para manter incólume sua identidade, a máscara veneziana, os disfarces e, principalmente, a narrativa com passagens de cena.
Mas "Mandrake" ficou mais famoso, até mesmo como gíria. Quando o sujeito é todo cheio de truques, mente para conseguir seu intento ou então é um picareta incorrigível, diz-se que ele está com "mandracaria". Ou então, quando um governo de um país em desenvolvimento acha que pode tornar - num passe de mágica - sua moeda equiparável às das maiores potências mundiais, é possível dizer a mesma coisa.
Lee Falk nasceu Leon Falk em Saint Louis e estudou na Universidade de Illinois. Sua biografia é meio esquizofrênica: consta que trabalhou para a CIA durante a 2.ª Guerra Mundial. Ao terminar a guerra, passou a dedicar-se ao teatro, produzindo mais de 300 peças e escrevendo e dirigindo dezenas. Também fez dois musicais, entre eles um que era inspirado no personagem central de seu gibi, intitulado "Mandrake, o Mágico e a Encantadora".
Suas duas criações imortais, "Mandrake" e "Fantasma"
surgiram quando ainda era um estudante. "Mandrake" veio primeiro, em 1934, quando Falk tinha apenas 22 anos. Em 1936, ele criou o "Fantasma". Apesar do teatro, foram esses dois que possibilitaram a aposentadoria tranquila de Falk. Ele não tinha intenção de levá-los muito longe. Tentava a vida como redator de uma agência de publicidade e foi ali que veio a conhecer um dos seus mais famosos parceiros, o desenhista Phil Davis, que deu forma a sua imortal criação.
Davis, formado pela Washington University Art School, desenhou "Mandrake" até 1964, com o auxílio da mulher, Martha, que morreu de ataque cardíaco naquele ano. "Mandrake", o ilusionista antepassado de David Copperfield, foi realmente inspirado nas figuras dos mágicos de circo e o nome veio da planta mandrágora. Seu perfil racista chegou a ser acentuado por estudiosos, que viam na fidelidade canina de Lothar (um rei africano que serve como mordomo do mágico) um exemplo da visão com que o colonialista vê o colonizado.
"Mandrake", como se pode ver pelas fotos, foi uma espécie de alter ego de Falk. O mesmo bigodinho bem aparado, a gomalina no cabelo, a modéstia calculada. "Mandrake" vive numa mansão paradisíaca, o palácio de Xanadu, geralmente esticado na própria praia particular, com sua eterna noiva Narda. É um bon vivant desocupado.
"Fantasma, o Espírito que Anda" era uma espécie de Tarzã civilizado, uma espécie de ponte entre a barbárie da selva e a aristocracia urbana. Desenhado inicialmente por Ray Moore, vive na selva fictícia de Bengala - claramente localizada na áfrica -, cercado por pigmeus da tribo Bandar. Consciência ecológica - No fundo, os dois eram saltimbancos tirados da memória da infância em Saint Louis, no Missouri. Vieram antes do "Super-Homem" e do "Batman". A idéia de Ray Moore para o Fantasma era algo mais dark e menos ingênuo. E Falk pretendeu dar-lhe uma consciência ecológica inédita para a época. O "Fantasma" tem grande apreço pela natureza, respeita os ritos de tradição, vive em harmonia com animais e nativos de Bengala.
"Talvez o Fantasma seja sucesso por causa do seu ar misterioso, seu anel, a marca que seu soco deixa", disse Falk. É certo que os bordões que o escritor criou para o personagem ajudaram um bocado. "Às vezes, o Fantasma anda pelas ruas da cidade como um homem comum", dizia um deles. Para parecer "comum", usa aquele sobretudo bogartiano - mas nunca deixa seu lobo, Capeto, em casa. Nada mais comum.
"Creio que a arte de fazer uma tira de quadrinhos é muito parecida com a criação de roteiros teatrais ou cinematográficos", afirmou certa vez Lee Falk, que esteve no Brasil em 1970, para uma exposição no Masp. "Quando crio histórias para "Mandrake" ou "Fantasma", escrevo um roteiro detalhadíssimo, que inclui detalhes da ação e das roupas".
Quando esteve no Brasil, Falk viveu uma aventura que considerava extraordinária: conheceu Pelé após um jogo de futebol, no vestiário. Não se acanhou: pediu autógrafo. Na ocasião, durante uma palestra, ele contou que, na época em que criou o "Fantasma" - herói sem poderes excepcionais - ele achava que seria covardia um sujeito ter uma habilidade espantosa e ainda por cima ter superpoderes. Além do talento e do senso de oportunidade, Lee Falk tinha um senso de humor dos mais apurados.


