Criador de Mafalda participa de ciclo de quadrinhos em São Paulo
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domingo, 16 de maio de 1999
Por Jotabê Medeiros 
São Paulo, 17 (AE) - Uma vez por semana, ainda sai uma charge dele no diário "El Clarín", de Buenos Aires. Mas houve um tempo em que o desenhista Joaquín Salvador Lavado, conhecido por Quino, fertilizava toda a consciência crítica da América Latina com as aventuras cotidianas da menina Mafalda, um cartum cabeçudinho e perspicaz que fez história e depois, no auge da fama, tirou o time de campo.
Eis que Quino volta ao Brasil - a última vez que pisou aqui, segundo lembra, foi há oito anos. Chega no começo de julho para encerrar o ciclo "Quadrinhos Quadro a Quadro", que está em curso no Sesc Consolação desde abril. Ele e o italiano Paolo Eleuteri Serpieri, o autor da sexy Druuna, são os convidados para o encerramento da jornada - Serpieri em 5 de julho e Quino no dia 8.
Mas não se iludam. Quino não traz boas notícias sobre seu maior cult, a feminista precoce Mafalda. "Novas tiras da Mafalda?", perguntou o desenhista, em entrevista (curta) exclusiva por telefone, de seu apartamento no centro de Buenos Aires, onde estava procedendo a algumas reformas. "É difícil: eu a desenhava quando tinha 35 anos e agora tenho o dobro dessa idade", ponderou o artista. "Atualmente, estou demasiado amargurado e ela não seria mais tão graciosa", afirmou. Há 26 anos não sai uma só tirinha da Mafalda.
Quino queixou-se de alguns problemas de saúde e também da situação política e econômica da Argentina. Não vê perspectivas a curto prazo para o seu país, o que o faz ainda mais amargurado. "Se ganhar o Justicialismo, tudo permanece como está; se ganhar a oposição, não vai conseguir fazer muita coisa", observa.
Rara argúcia - Quino criou a Mafalda em 1962 para a campanha de uma fábrica de eletrodomésticos. Os eletrodomésticos Mansfield não tiveram sucesso comercial na Argentina, mas Mafalda estourou com tiras na revista Primera Plana. Ironizava, com rara argúcia, temas como a Guerra do Vietnã, as conquistas comportamentais dos anos 60 e a política latino-americana.
Quino continua ligado na política internacional e em tudo mais que se passa no mundo. Só perdeu um pouco o entusiasmo de interferir. "Não posso entender como a Europa assiste impassível à guerra nos Bálcãs", diz o desenhista. "Tudo isso me parece uma barbaridade sem sentido; toda guerra é sempre um horror."
Não, nem todas as guerras, reconsidera. "A 2ª Guerra Mundial foi justa, mas essa é apenas uma barbaridade, não há nenhum bem nela", comenta. A visão realista e politizada de Quino vazou para os comentários ácidos de Mafalda, que foi uma referência durante anos. "O que eu penso da Mafalda não importa; importa é o que a Mafalda pensa de mim", sintetizou o escritor Julio Cortázar, quando lhe perguntaram um dia o que achava da personagem.
"Mafalda não é apenas um novo personagem das histórias em quadrinhos", opinou o ensaísta italiano Umberto Eco, outro grande fã da menina. "Ela é o personagem dos anos 70, uma heroína enraivecida que recusa o mundo tal como ele é." Para o próprio Quino, a graça da personagem está na sua franqueza infantil, algo que os adultos perderam há muito tempo.
Quino só começou a desenhar profissionalmente em 1954, realizando charges para a revista de humor "Esto Es". Criou Mafalda em 1962 e, pouco tempo depois, em 1964, as histórias já eram traduzidas para o inglês, francês, alemão, italiano, finlandês e, claro, português. O desenhista conseguiu uma legião de fãs aqui, principalmente entre a geração dos anos 70. Um dos seus grandes amigos brasileiros é o cartunista Ziraldo e a admiração é recíproca: Quino adora o Pererê e o Menino Maluquinho.
Mafalda é filha de um inspetor de seguros e de uma dona de casa e cultiva plantas para distrair-se. O pai conheceu a mãe quando estudavam na universidade e, quando engravidou, a mãe deixou tudo para cuidar da filha e de seu irmão menor, Guile. Feminista, Mafalda vive cutucando a consciência da mãe.
Seus amigos são Filipe, dispersivo e imaginativo; Manolito, pequeno e pragmático; o egocêntrico Miguelito ("Será que o mundo é assim porque é cheio de Miguelitos?", pergunta Mafalda); Suzanita, alienada e preparada para cumprir seu papel burguês no mundo (o que irrita Mafalda); e Liberdade, a amiga perfeita, intelectualóide e politizada, sempre pronta a invocar a revolução permanente.
A mulher intangível - O desenhista italiano Paolo Eleuteri Serpieri, de 52 anos, é o criador da Druuna, mulher que povoa há mais de duas décadas a imaginação dos adolescentes nas páginas da "Heavy Metal", a bíblia dos quadrinhos. Ele conta uma história engraçada sobre sua personagem. Em 1994, ele lembra
estava na convenção de quadrinhos de Angoulême, na França, quando um jornalista chegou para ele com uma estranha questão.
"O que você achou daquela mulher que estava no estande da editora no ano passado?", disse o jornalista. "Ela não era a imagem em carne e osso de Druuna?" Serpieri ficou embasbacado. "Que mulher? Que estande?", perguntou. "Eu mesmo
que passara anos à procura de Druuna, gastei quatro dias procurando a mulher da qual ele falara, inutilmente."
Na verdade, a procura da versão real de Druuna é inútil, diz Serpieri. Porque ela é uma amálgama de todas as "maravilhosas mulheres" que um dia cruzaram seu caminho e possui características de cada uma delas. A Playboy brasileira quase chegou lá, quando descobriu a fantástica sósia de Druuna, a modelo Ana Lima, há alguns anos, e a promoveu a cover girl da revista.
Mas Druuna é imortal e intangível e esses são seus maiores trunfos. O veneziano Serpieri, que adora viajar, "talvez justamente por causa do sangue veneziano", vive atualmente em Roma, de onde se deslocará em julho para falar aos fãs de Druuna deste lado do mundo. O Brasil lhe é familiar: além de já ter tido uma namorada brasileira, num passado remoto, também ambientou aventuras da sua heroína nua na Amazônia.
Há quem diga que Druuna é um personagem meramente pornográfico. "Meramente" já seria um grande elogio para Serpieri. Mas, embora participe de orgias intergalácticas (em Morbus Gravis, chega a fazer fellatio em um alienígena de inúmeros membros) e o sexo explícito seja uma das características das suas aventuras, é na anatomia ousada e hiper-realista de Serpieri que está o segredo.
Druuna habita um mundo desolado, pós-apocalíptico e devasso. Tudo é virtualidade - não se pode confiar nem na aparência normal da musa futurista. Mas pode-se admirá-la. Ela não é esbelta como as mulheres de Milo Manara (é até um pouco cheinha) nem tem a classe das garotas de Vittorio Giardino - outros dois italianos que são feras no desenho erótico. Está mais para Carla Perez do que para Carolina Ferraz. É ingênua, mas não infantilóide.
O evento "Quadrinhos Quadro a Quadro" ocorre toda terça e quinta-feira, no Sesc Consolação (Rua Dr. Vila Nova, 245
tel. 234-3000), em São Paulo. Amanhã, às 19 horas, um dos maiores artistas gráficos brasileiros, o paulistano Luis Gê, é o convidado da jornada. Na quinta-feira, as estrelas são os irmãos Paulo e Chico Caruso.
O organizador da mostra, álvaro de Moya, diz que, ao fim do evento, será editado o livro Brasil - 500 Anos em Quadrinhos, reunindo trabalhos de artistas nacionais sobre o tema do Descobrimento.


