Criador de 'Amélia', ele foi polivalente nas artes
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sexta-feira, 31 de maio de 2002
Mauro Dias<br>Agência Estado 
O Aurélio consigna o substantivo feminino amélia: Mulher que aceita toda sorte de privações e/ou vexames sem reclamar, por amor a seu homem, significado que descreve o comportamento da protagonista de Ai, Que Saudades da Amélia, samba composto por Ataulfo Alves e Mário Lago, em 1942.
A personagem de fato existiu. Era a lavadeira de Almeidinha, irmão de Araci de Almeida, que lhe gabava ainda os dotes de cozinheira, arrumadeira e outras que tais, tudo sem achar ruim, e ganhando pouco. Na brincadeira na roda de amigos do Café Ópera, no centro do Rio, vaticinou-se: tão perfeita, não poderia ser de verdade.
Daí para o samba foram uns poucos versos e alguns compassos, coisa simples, quase descompromissada que deu numa das canções mais conhecidas da história da música brasileira. Não foi o seu primeiro sucesso. Na quarta-feira de cinzas de 1940, havia composto, com Roberto Riberti, a marchinha Aurora, sucesso do carnaval do ano seguinte, nas vozes de Joel e Gaúcho, depois regravada por Carmem Miranda.
Mário Lago fez cerca de 200 músicas. Considerado o tempo de atividade, pode não ser um número tão grande - mas o tempo do compositor foi dividido com o do autor e ator de teatro, ator de cinema e televisão, advogado formado, embora de rala prática, funcionário público, apresentador de rádio, jornalista, escritor - de memórias e poemas e a livros infantis -, ativista político e até cantor, atividade iniciada tardiamente, em 1977.
Filho do maestro Antônio Lago, atuante em companhia de operetas e também de cabarés, neto de músicos - por parte de pai e de mãe -, Mário Lago contava: quis ser artista desde menino, desde os tempos em que andava de pé descalços na Lapa onde nasceu e cresceu. Ao 7 anos, engoliu um guizo - prova de que seria homem de festa, achava.
Nasceu no dia 26 de novembro de 1911. Estreou como ator em 1916. É que, quando o pai viajava em montagens da companhia, a mãe e o menino, filho único, iam juntos. Um dia, o ator que fazia o filho de Madame Butterfly ficou doente. Mário Lago o substituiu. Intervalo. Quatro anos mais tarde, voltou à cena, dessa vez, cantando, vestido de marinheiro. Conta que o público começou a rir: nervoso, o garoto urinara na calça durante o número.
Estreou como autor de revistas musicais em 1933 - no mesmo ano em que se formara em Direito. Foi advogado por três meses. Assinou várias peças em parceria com Álvaro Pinto - entre elas, Flores da Cunha, Figa de Guiné e Grande Estréia.
Antônio Lago, o pai, fazia, entre outras coisas, testes para cantores nos teatros da Praça Tiradentes, no centro carioca. Francisco Alves foi um dos que passou pelo crivo do maestro. Por conta de cujos relacionamentos, o menino estabeleceu os seus próprios.
Conheceu Custódio Mesquita e, com ele, em 1935, compôs a marcha Menina, Eu Sei de uma Coisa, versando sobre a vida de uma filha de militar que arrebanhava clientes num hotel de luxo. Custódio, grande compositor, era ótimo pianista. Tocava com as irmãs Carmem e Aurora Miranda, com Mário Reis e outros grandes do tempo. Mostrou a marcha para Mário, que a gravou, em 1936. Era a estréia do compositor.
Antes disso, havia estreado como poeta, em 1926, publicando o poema Revelação, na revista Fon-Fon. Tinha 15 anos e a Fon-Fon era um das revistas mais importantes do Rio, cabe lembrar.
Entre a estréia oficial como autor de musicais, escreveu esquetes que vendeu para custear a faculdade de Direito. Em 1929, arranjou emprego no jornal O Radical. Primeira tarefa do repórter: cobrir um incêndio. O texto que produziu era literário demais. Segunda tarefa: acompanhar o motim de presos que culminou na Revolução de 30. Mário gostou do levante dos presos e não voltou à redação para escrever a reportagem.
Mas descobriu a política e entrou para o Partido Comunista. Panfletando, na frente de uma fábrica, em 1932, foi preso pela primeira vez. Depois fui preso em 1941, 1946, 1949, 1964 e 1968, contou à Agência Estado, há cinco anos. Esse parece ser o número certo das prisões - sempre por motivos políticos - de Mário Lago, embora em algumas ocasiões tenha declarado ter sido preso 13 vezes.


