Criação e transgressão
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 07 de novembro de 1997
Luiz Claudio Oliveira Curitiba 
ReproduçãoInstalação: vidro, foto da mão do artista com sabão em pó cobrindo suas unhas, um buraco na paredeO artista plástico Yiftah Peled está aprontando mais uma. Mesinhas de rodinhas que sobem pelas paredes, documentos para serem cuspidos, fotos mordidas inseridas em melancias, chão de estação rodoviária com chicletes pisados e fotografias do artista peladão. Tudo isso - e muito mais - faz parte da exposição do artista no Espaço de Arte Ybakatu.
Yiftah é um israelense que estudou arte na Inglaterra e adotou Curitiba como sua cidade a partir de 1991. Desde que aqui chegou, começou a aprontar a cada exposição. Não há amarras ou estilos que o contenham. Cada mostra é um exercício de liberdade artística, com extravagância e bom humor.
A arte de Peled não é acomodada. Ele investe contra a passividade. Faz questão que as pessoas reajam ao que vêem. Isso não é fácil neste mundo onde somos bombardeados por imagens o dia inteiro, em qualquer lugar lugar
que estejamos dentro de uma cidade.
O marketing universal é baseado em imagem, sejam em movimento ou não. Folhetos, panfletos, cartazes, placas, out-doors, painéis eletrônicos, televisão, vídeo, cinema, computador... Tudo quer nos pegar pela imagem e nós, até por um instinto de sobrevivência, passamos indiferentes por tudo, o que obriga os marketeiros a serem cada vez mais agressivos.
O artista não é, ou não deveria ser, um agente de marketing, embora, para sobreviver, tenha que vender seu trabalho e, para vender, tenha que aparecer, chamar a atenção dos olhos alheios. Não é fácil. Alguns aderem à linguagem fácil da moda, enquadram seus trabalhos à necessidade do mercado e, nesse processo, deixam de ser artistas para serem apenas mais um agente de marketing.
Criatividade Yiftah é um dos que driblam toda essa polêmica com uma das funções que o artista não deve nunca abandonar: ser criativo. Muitos podem até questionar se o que ele faz é realmente arte. Pensam naquela arte clássica, bem comportada. Não conseguem viajar junto com o artista. Ficam irritados por terem sido enganados e não conseguem relaxar e rir, aceitar com bom humor a peça que o artista está lhes pregando.
As obras de Yiftah Peled não são impenetráveis - em nenhum dos sentidos da palavra. Nem é preciso conhecer a fundo a história da arte para entendê-la. Nesta exposição, ele consegue fazer pensar e divertir - não necessariamente nesta ordem. Visitar uma exposição de Yiftah é como ir a um parque de diversões, a um cinema, a um teatro, a um museu. Ali você encontra arte e lazer.
Ou nas palavras da crítica de arte Nelly Perazzo: Dos artistas dos anos 90, Peled tem a desinibição como sentido de liberdade e a falta de preconceito nunca como fator irritativo, e deixa de lado os jogos corrosivos da linguagem ou da imagem para inclinar-se em direção à sutileza, à elaboração rigorosa e um refinamento determinado. Como disse Heidegger: a obra de arte inastaura o mundo, porque não apresenta um mundo acabado... Peled, captando a criação a nível desta pergunta aberta, se detem com as palavras de sua última obra: o que é preciso fazer?.
É preciso ver. Com olhos, mentes e corações desarmados. Sem preconceitos. Divirta-se. E pense.
Yiftah Peled - Instalações - Até 29 de novembro, na Ybakatu Espaço de Arte (Rua Itupava, 414, Alto da XV, Curitiba, fone 041/264-4752). De terça a sexta-feira, das 14h às 19h e aos sábados, das 10h às 13h.


