CRIAÇÃO BRASILEIRA
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segunda-feira, 24 de abril de 2006
Katia Michelle Pires<br> Equipe da Folha 
Curitiba - Uma cidade pequena sempre tem seus personagens peculiares. Eles não estão distantes das metrópoles, mas no interior, ressaltam suas características, ganham força e acabam sendo uma atração à parte dentro do que a cidade tem a oferecer. É assim no município de Itaipulândia (a 85 km a nordeste de Foz do Iguaçu), onde o ex-agricultor Máximo Ferreira, de 61 anos, faz parte da história da cidade e transforma a rotina local. Autodidata no artesanato, ele mora num museu de garrafas pets que foi construindo ao longo de mais de uma década. São mais de 6 mil garrafas cuidadosamente pintadas e recortadas que ornamentam a casa onde o artista reside.
Nascido em Criciúma, em Santa Catarina, ele chegou na região há 20 anos para trabalhar nas plantações de soja e fumo. Há 14, passou a colocar pequenos aviões de madeira que construía no quintal da sua casa. Quando as garrafas pets tornaram-se mais populares, começou a comprá-las das crianças do município, com o dinheiro do próprio bolso. Recortava, pintava e fazia pequenos monumentos para decorar o espaço em que os aviõezinhos ficavam. Até que o hobby se tornou quase uma obsessão e Ferreira começou a ficar horas a fio inventando objetos de garrafas que ficaram maiores que o próprio artesanato de madeira. O resultado é uma fachada de 80 metros que transforma a casa de material num verdadeiro castelo de plástico.
A casa é um dos pontos turísticos de Itaipulândia e é impossível conhecer a cidade localizada às margens do lago de Itaipú sem visitá-la. E quem o faz, não se arrepende e é recebido com muita atenção pelo anfitrião. Eu fico muito feliz quando as pessoas páram aqui. Gosto de contar a história de tudo o que tem na casa, conta Ferreira. Apesar de não saber ler, nem escrever, a casa do artista, como ele denomina o seu espaço, é repleto de placas com frases de pára-choque de caminhões. Eu peço para os viajantes escreverem e depois copio ou pinto em cima, diverte-se Ferreira arriscando esse aqui é um o, esse aqui é um e. Não é?.
Além das frases, anedotas e perguntas a que ele mesmo responde, o local é repleto de pequenos santuários, alguns com personagens inventados, outros com personagens da história política do Brasil, como Leonel Brizola e um tributo ao deputado Tiago Amorim, morto em Cascavel. Entre os personagens fictícios está a baiana, o gaúcho e o macaco sentado no banheiro do guarda. Monumentos religiosos também fazem parte do castelo de garrafas. São santas, santos crucifixos e objetos inventados pelo ex-agricultor. Eu sou muito religioso, frisa.
Tanta devoção transformou não só a casa do ex-agricultor, mas também sua vida pessoal. Minha mulher não gostava disso aqui e me deixou, conta, se referindo ao seu artesanato. Mas a tristeza não faz parte da rotina do velho do geladinho, como ele é conhecido na cidade por ter, por muito tempo, vendido picolés. Há pouco mais de um mês da separação ele pede para anunciar: Você pode colocar no jornal que eu estou procurando uma companheira? Tem que gostar de artesanato, mas não pode ser gorda.
Para as interessadas, é bom saber que o senhor Máximo Ferreira é um personagem peculiar. Acorda cedo, passa horas limpando e cuidando da própria casa e substituindo as garrafas que por ventura tenham se danificado. Ele mesmo cria as histórias que acompanham cada detalhe da casa. Alguns monumentos misturam garrafas com sucata, encontrada no lixo ou doada pela população. Um passeio pela casa, revela televisores antigos, rádio, bichos de pelúcia que ganham movimentos em verdadeiras traquitanas desenvolvidas pelo ex-agricultor. Ele costuma passar bastante tempo também sentado em um banquinho, que leva para todo canto como conta, falando no seu celular. O detalhe é que o aparelho não funciona.
Ferreira também gosta de se arrumar. Para posar para as fotos que ilustram essa reportagem ficou na dúvida se usava um lenço ou as jóias que ele mesmo fabrica com sucata. Ficou com os dois. Além de ser conhecido pela excentricidade em toda a região, Ferreira é também uma exceção à regra de Itaipulândia. A cidade de poucos mais de 6 mil habitantes tem índice de analfabetismo zero, mas o senhor Ferreira nunca aprendeu a ler nem a escrever. Isso não impede, porém, que assim como a maioria dos habitantes do município sua qualidade de vida seja exemplar.
Sobrevive da aposentadoria e desfruta da boa infra-estrutura que a cidade oferece. Itaipulândia, aliás, é um exemplo de cidades que tiveram um grande avanço em todos os setores da economia graças aos royalties repassados pela Itaipu Binacional. A criminalidade praticamente não existe e a cidade tem um ar de contos de fadas. Tem até castelo.


