Crer ou não crer, o X da questão
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 24 de julho de 2008
Carlos Eduardo Lourenço Jorge<br> Especial para a Folha2 
Efetivamente este novo apêndice cinematográfico dos Arquivos X é uma questão de fé. Ou se tem ou não se tem. Ou o espectador se envolve como quem olha fotos do passado e curte a nostalgia episódica dos anos 1990, ou então este revival vai por água abaixo logo nos primeiros minutos. O próprio subtítulo original é bem explícito, e sua tradução ao pé da letra, ''Eu Quero Acreditar'', não deixa dúvidas. Assim, para quem permanece com fidelidade canina sendo um crédulo da série, ou um ''serial believer'', o filme pode até agradar. Mas aqueles que perceberem à saída do cinema que se trata somente de um interminável (e mal resolvido) namoro com os fãs da série televisiva vão saber que viram um filme de cinema inferior. Bem inferior mesmo.
Estão desaparecendo algumas mulheres numa região rural da Virgínia. Ninguém tem pistas de nada, e a única pessoa que parece manter algum contado com elas é um sacerdote, por meio de visões. São estas visões que levarão a polícia até as vítimas. Como é tudo muito estranho, e como o FBI andou trancando arquivos X e dispersando especialistas, voltam à cena exatamente os especialistas, os agentes Fox Mulder (David Duchovny) e Dana Scully (Gillian Anderson), novamente juntos para tentar resolver um dos casos mais estranhos de suas carreiras. Na verdade, nem tão estranho como os aficionados gostariam.
''Arquivo X: Eu Quero Acreditar'' é o segundo longa-metragem baseado na quase mítica e multipremiada série televisiva The X-Files. Dez anos se passaram desde o primeiro filme, aliás muito ruim, e seis desde a nona e última temporada da série. Mas os fãs seguiram fiéis mundo afora, e por isso o criador da mania, Chris Carter, co-autor do roteiro ao lado de Frank Spotnitz, retomou pessoalmente a história. E como não poderia ser diferente, a dupla Duchovny-Anderson reassumiu os postos de agentes ''esquisitos'' do FBI. Seguem mantendo a tal química especial, mas para dar um quê de credibilidade ao incrível, os personagens receberam dose substancial de maturidade. Menos mal.
Depois da monotonia da década durante a qual quase nada de excitante aconteceu, a dupla de agentes icônicos da TV está às voltas com um mistério que acaba inexplicavelmente dessacralizado pelo argumento criado por Chris Carter. O roteirista-diretor retira a natureza exótica de seu próprio produto original, sonega a identidade referencial - paranormalidade, mistérios insolúveis, imbróglios ufológicos, em resumo, a intrusão de tudo que é irracional no universo da razão - e deixa muito mais para o território terreno do thriller enevoado do que, como seria de se esperar, dentro dos limites bem mais arrepiantes da irrealidade.
Com um clímax descafeinado e baixo em calorias, vazio de tensão e suspense, Carter fecha seu filme de maneira insossa enfatizando o conflito moral que atormenta Scully durante todo o tempo, pretendendo com isto dimensionar tragicamente sua trama. E se esquece, como o anterior também havia se esquecido, daquilo que pode não ser lá grande coisa, mas pelo menos é essencial em filmes deste gênero: mistério temperado por adrenalina.


