Creedence toca pela 1ª vez no Brasil após 40 anos de estrada
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domingo, 21 de fevereiro de 1999
Por Jotabê Medeiros 
São Paulo, 22 (AE) - Essa banda foi criada em 1959, quando seus integrantes ainda estavam no ginásio. "Estávamos no primário", corrige o baterista e líder atual da banda, Doug Clifford, hoje com 56 anos. Eternizaram canções como "Proud Mary", "Born on The Bayou", "Fortunate Son", "Have You ever Seen the Rain" e puseram toda uma geração para dançar.
No Brasil, pela primeira vez após 40 anos de estrada, o Creedence Clearwater chega rachado pelo tempo e pela intolerância. O vocalista e símbolo da banda, John Fogerty, não vem junto - está mais preocupado com sua carreira-solo e torce o nariz para esse Creedence Revisited, que é levado adiante pelo baterista Doug Clifford e pelo baixista Stu Cook (dois dos integrantes da formação original).
Além de Cook e Clifford, o CCR tem ainda o tecladista Steve Gunner, o guitarrista Elliot Easton e o vocalista John Tristao. "Ele tem uma voz profunda, original, e sua escolha não está vinculada à similaridade com a voz de John", disse o baterista Clifford, em entrevista por telefone da Argentina, onde o grupo fez dois shows.
O baterista diz que o grupo deve tocar todo o repertório do novo CD ao vivo da banda, gravado no ano passado, "Recollection", que tem 22 hits do velho Creedence. Também promete incluir "alguma surpresa". Os shows de amanhã e quarta-feira no Olympia, em São Paulo, às 21 horas, têm preços entre R$ 40 e R$ 80. Pergunta - Algumas das canções do seu disco "Recollection" não eram tocadas há um bom tempo. Quais foram os critérios para escolher as canções? Doug Clifford - Nós optamos por tocar as canções que os fãs mais pedem em nossas turnês pelo mundo. O disco respeita a vontade dos fãs e procura também respeitar a nossa própria como músicos. Nós procuramos gravar porque não estávamos satisfeitos somente em andar pelo mundo tocando as canções, queríamos um registro dessas apresentações. Pergunta - Como é a relação de vocês hoje com John Fogerty? Há alguma chance de ele voltar a tocar com a banda? Clifford - A nossa relação é a seguinte: nós nem nos falamos. Não sei o que ele pensa e não acho que haja nenhuma chance de virmos a tocar de novo juntos. Pergunta - Fogerty teve seu novo disco, "Premonition", indicado para dois prêmios Grammy. Você ouviu o disco? O que achou? Clifford - Sim eu ouvi o disco. Vou ser sincero: na minha opinião, é um trabalho desapontador. Não é um sucesso de público, mas de crítica. E sua indicação para o Grammy me parece mais fruto de um lobby da crítica do que da vontade de um público, que não apreciou o disco. Ele não toca mais para conquistar o coração de uma platéia, toca para si próprio. Pergunta - É verdade que o fim do grupo, após a gravação de "Cosmos Factory", em 1970, se deve mais a brigas entre os irmãos Fogerty? Clifford - Sim, é verdade. Eles não se aguentavam mais. É preciso entender também que todos nós éramos muito jovens naquela época, muito despreparados para lidar com todo aquele cerco e com a fama repentina. Faltava uma certa dose de responsabilidade. Pergunta - Em "Fortunate Son", sua canção mais política, vocês lutavam contra a Guerra do Vietnã e os privilégios. Como você vê hoje a luta dos Estados Unidos na Guerra do Golfo e a política externa do governo Clinton? Clifford - São duas guerras muito distintas. Naquela época, a Guerra do Vietnã ceifava mais as vidas dos jovens com menos dinheiro e foi contra isso que nós nos levantamos. Era uma guerra injusta e sem critério. Hoje, a Guerra do Golfo tem o apoio da comunidade internacional, é uma luta comum, com princípios e visando à manutenção da paz. São situações diferentes. Pergunta - Vocês demonstram uma grande ligação com o rhythmnblues. O que acham das novas caras do gênero, como o guitarrista KebMo e a cantora Erykah Badu? Clifford - Eu gosto bastante. Nossa música tem muito a ver também com o country, com o creole, com o rockabilly. Mas está ligada principalmente às raízes do blues, que é algo que eu vejo também na música de KebMo, por exemplo. É algo que está muito presente no som do Creedence. pergunta - Você conhece algo da música brasileira? Clifford - Conheço alguma coisa. Sei que há grandes percussionistas e bateristas no Brasil. Mas estou admirado principalmente com o comportamento do público. Nós estamos tocando em cinco países, incluindo alguns que nunca visitamos, como a Argentina e o Chile. A resposta do público tem sido altamente energética, é algo muito estimulante. Espero encontrar o mesmo no Brasil.


