Creches, camelos e cangurus sofríveis
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quinta-feira, 19 de junho de 2003
Carlos Eduardo Lourenço Jorge<br> Especial para a Folha 2 
É aquela velha história da limonada agradável que se faz do limão azedo. Diante de filmes como estes dois que estão aí em lançamento nacional (veja a programação de cinema na página 8), é preciso tirar pelo menos uma lição que compense o custo dos ingressos. Isto é, você até pode levar os filhos e encarar de frente dois programas tão esquálidos quanto ''Kangaroo Jack'' e ''Daddy Day Care'', mas se já não sabia, agora vai ficar melhor informado sobre como Hollywood atira dinheiro pela janela com projetos de qualidade além de duvidosa. Diga isso a suas crianças e estará prestando inestimável serviço não só a elas, mas ao cinema em geral.
No caso de ''Canguru Jack'', a idéia poderia até ter resultado em filme razoável para a criançada já em busca de lazer como pré-estréia para as férias iminentes. Dois amigos de infância se envolvem com a máfia e são mandados para a Austrália para fazer uma entrega de 50 mil dólares. Uma vez no país, atropelam um canguru esperto, que fica com a jaqueta onde está o dinheiro e foge em seguida. Agora é preciso rastrear o animal antes que os mafiosos pensem que eles fugiram com o dinheiro.
Então é isso. O filme, apesar das convincentes ameaças de morte dos mafiosos, das várias piadas de salão de barbeiro de cidade de interior e de insinuações sem qualquer sutileza, pretende descaradamente ser amigo da platéia de menores. Este é um fato evidente, primeiro por conta das lamentáveis intenções ''cômicas'' espalhadas pelo filme. Depois, pela presença sempre flatulenta dos camelos na Austrália - sim, há camelos na Austrália, quem disse que não há bobagens nas telas com mensagens culturais!? E se você é daqueles que se contentam com gags sobre camelos soltando gases, então ''Canguru Jack'' foi feito para o seu deleite. Sobre quem dirige e quem interpreta, esqueça.
O caso de ''A Creche de Papai'' é menos desalentador, mas também não encontra motivos para recomendação. Para começar: pergunte-se uma vez mais o que foi feito de Eddie Murphy. No começo não exatamente um comediante genial, mas um sujeito até que bem engraçado, interpretando alguns dos filmes mais populares dos anos 1980 para depois cair no risível desvio dos anos 1990 por conta de roteiros equivocados. Depois aconteceu ''O Professor Aloprado'', que transformou o personagem boca-dura e irreverente numa espécie de novo ícone das famílias. Esta saga ''familiar'' prosseguiu com o novo ''Aloprado'', ''Dr. Doolitle'', e o melhor sucedido de todos, ''Shrek'', ironicamente sem botar a cara na tela.
Essa mudança deveu-se a filhos, sempre eles. E, claro, a dinheiro - a ordem desses fatores é que duvidosa. Murphy decidiu que faria filmes que seus filhos pudessem assistir, o que Robin Williams já tinha decidido, e com resultados francamente bobos. E também havia a questão box office, vale dizer, qualquer de seus filmes ''livres'' faziam nas bilheterias os milhões que seus filmes ''adultos'' deixaram de faturar. O último exemplo dessa cruzada ''regeneradora'' é ''A Creche de Papai''.
Murphy e um amigo são dois desempregados que decidem abrir uma creche em casa, já que as respectivas mulheres trabalham fora. Mas como dois executivos contemporâneos e fora da realidade, a administração corporativa do novo empreendimento é um desastre.
Há ainda a rivalidade com uma pré-escola dirigida por Angélica Huston. E para o personagem de Murphy uma inevitável escolha entre a careira e a dedicação à nova ''clientela'' miúda. Não há quase nada a destacar nesta comédia previsível e sempre de namoro firme com o sentimentalismo, uma vez que uma tímida tentativa de sátira esboçada de início dá lugar a um anedotário típico desse tipo de situação envolvendo adultos despreparados e crianças engraçadinhas.


