Os atores que atravessam o portal do Centro de Pesquisa Teatral (CPT), do Sesc Consolação (São Paulo), dirigidos pela batuta de Antunes Filho, se deparam com muitas questões ligadas à transitoriedade. Termo de difícil compreensão à primeira vista. No Festival Internacional de Londrina, durante os Projetos de Maio, o espetáculo ‘‘Prêt-à-Porter 3’’ (hoje, em última apresentação, às 21 horas, em Londrina), mostrou ao público, no diminuto espaço do Núcleo I, o significado da transitoriedade, segundo o evangelho antuniano.
A preparação de um ator integrante do CPT não se restringe em travar conhecimento com técnicas revolucionárias. A trajetória inclui tatear os labirintos do autoconhecimento. Na bagagem de um ator do CPT, o texto teatral não é uma finalidade em si. Beber na fonte da filosofia oriental, da física quântica, da psicanálise junguiana, das várias vertentes mitológicas é pouco.
A imersão total pega o atalho da retórica e da boa literatura, com o propósito de experimentar um biscoito fino para afinar a sensibilidade. As referências cinematográficas também são imperativas no processo-aprendizagem. Filmes de todos os sotaques e propostas são degustados nas 12 horas diárias de estudo-ação.
Burilar uma pedra bruta que chega à Rua Dr. Vila Nova, sede do CPT, requer uma projeto pessoal de trabalho no teatro. Se uma pessoa pretende tocar violino, entende que precisa de pelo menos 10 longos anos de dedicação ao estudo, ao conhecimento de repertório, de educação do ouvido, de familiariedade com a música. ‘‘Por que no teatro todos acham que podem entrar num palco e conceber uma cena. Teatro não é terreno baldio, requer técnica, cultura’’, diz o ator Emerson Danesi, se referindo a uma máxima antuniana.
Silvia Lourenço, desde 1997 no CPT, aconselha aos que almejam um lugar ao sol no campo teatral que comecem com os recursos que dispõem, dêem o pontapé inicial por aquilo que mais os atrai. ‘‘O bom ator é aquele que sabe detectar em todo o discurso o que mexe com o coração de fato. Tem a ver com aquilo que você quer falar com as pessoas’’, resume Silvia.
O ator Donizeti Mazonas, parananese de Goio-erê, traça um paralelo entre a entrada nos campos do senhor Antunes ao de uma jornada de um herói. ‘‘Não importa o que eu fiz, importa o caminho’’, filosofa Donizeti. Tanto para a arte, como para a ciência, o que fascina é a capacidade de surpreender, na concepção de Donizeti. ‘‘Essa jornada nunca tem fim’’, avalia.
A palavra de maior ressonância nos domínios do CPT, como reporta a atriz Silvia Lourenço, é transitoriedade. ‘‘Dentro do processo criativo, a gente só percebe o sentido dessa palavra depois de um tempo. A gente quer viver certezas, quer cristalizar as coisas. Mas percebe que tudo é transitório’’, prossegue a atriz, sobrevivente de acidentes com as certezas amalgamadas e que foram literalmente destruídas por um rolo compressor. Silvia arremata sua avaliação constatando que aqueles despossuídos de projeto nesse terreno, quando saem de lá, saem perdidos, ancorados pelo sabor metálico da solidão.
‘‘Isso porque muita gente está num lugar certo, num momento errado da vida. A formação de um ator no CPT passa pela desestruturação do ego. Algumas experiências são doídas’’, conclui Emerson Danesi. A árvore frondosa, septuagenária e frutífera, chamada Antunes Filho, muitas vezes, deixa transparecer uma imagem de arrogância e severidade exacerbada, defendo com todas as forças uma ética para o palco. ‘‘Mas o Antunes é carinhoso, afetivo, engraçado e bem-humorado. É uma pessoa que possui um conhecimento muito profundo de teatro e por isso faz críticas duras, mas somente ao trabalho de ator’’, defende Silvia.
Donizeti emenda a linha de raciocínio da companheira de palco, dizendo que o ator, no início do processo de aprendizado no CPT, clama pela aceitação, pelo crivo positivo de Antunes Filho. ‘‘Mas se você não souber o que quer, ele vai falar que tá tudo errado, que você não sabe nada.’’ Na longa jornada pelo autoconhecimento e pela busca incansável pelo embasamento teórico e prático, Emerson Danesi ressalta que ao estar em evidência com Antunes é preciso ter capacidade de assumir isso, tirando as muletas. ‘‘No começo, a gente mata um leão por dia. Precisamos mostrar que não somos ovelhas de presépio de Antunes’’, confessa Silvia.
Na experiência cênica Prêt-à-Porter, a nova teatralidade proposta por Antunes Filho, o ator é autor da carpintaria dramatúrgica, literalmente senhor dos palcos. Essa proposta de renovação do oxigênio não nasce de um passe mágica de acender de luzes, nem do respaldo de um nome de ressonância mundial. Abraçar o fazer teatral com rigor ético e técnico requer debastar as convenções e certezas. Não existe caminho curto e raso, apregoam os atores de Antunes Filho. Eles, sem querer, se tornaram paradigmas de outros jovens atores, exilados pela falta de conhecimento e pela ausência de mestres visionários.

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