São Paulo, 08 (AE) - Comadre Florzinha, como ensina o texto do encarte do CD, uma citação de Câmara Cascudo, é a mulher fantástica e misteriosa que pune os invasores das matas - mas que ninguém tema, no CD "Comadre Florzinha" (gravadora CPC-Umes, home page www.umes.org.br; distribuição Eldorado), o tom lamentoso do modismo engajado na causa da preservação ambiental. A música das seis meninas - as nordestinas Telma, Isaar, Alessandra, Karina e Maria Helena e a paulista Renata - ressuma ao agreste, ao forró de pé de serra, à diversidade da paisagem do Nordeste.
Boa parte dos temas é de domínio público (cita-se sempre o documentador); alguma coisa é de mestres localizáveis (Grande Poder, de Mestre Verdilinho: "O nosso Deus corrige o mundo/ Pelo seu dominamento/ Sei o que a Terra gira/ Com o seu grande poder/ Grande poder, com o seu grande poder); outras, de nordestinos contemporâneos, de Chico Science (Angicos, com Lúcio Maia) a Tom Zé (Xique-Xique). As meninas assinam algumas das faixas. Não há quase instrumentos harmônicos, mesmo melódicos.
O tambor, o triângulo, o bombinho, o tambor mineiro, a alfaia, o djembê, a zabumba, as castanholas, o caxixi marcam o ritmo para as vozes, quase sempre uníssonas - as comadres são todas percussionistas -, e permitem, eventualmente, a entrada da sanfoninha ou de uma rabeca para colorir. De propósito, as vozes são rústicas, agrestes - vozes de cantadoras, de pastoras, de coreiras, integradas à qualidade monocórdia dos cantos, com seus ecos mouriscos, suas referências à tradição ibérica da Idade Média, elementos que estão ainda em algumas letras.
São toadas de reisado de Alagoas (Maré), cocos alagoanos (Araúna, Rodeira Di, Pirulito, Í, Papai), tambores de crioula, do Maranhão - Peneirou Arroz surge como música incidental de "Mais de Oito", das comadres Renata Mattar e Télma César. Sim, há vez para os continuadores: Antônio Nóbrega tem sua "Sambada de Mestres" como música incidental de Poica, de Renata Mattar. É da mesma Renata a "Sapopemba", um dos momentos mais divertidos - emprestando novidade ao recorrente trato do absurdo na música do interior, especialmente na nordestina: "Eu vi/ Sapobemba lá no pé de macambira/ Eu vi/ Laranjinha no meio do manguezal/ Eu vi/ Pitombeira no açude de Apipucos/ Eu vi/ Baronesa dar fulô no canavial".
A atitude de desassombro e coragem do selo CPC-Umes, ao lançar tal disco, tem o aval prévio de Antônio Nóbrega, que convidou as Florzinhas para seu último show em São Paulo e levou três delas para a França. Por atitudes assim, na contramão, sobrevive a cultura.

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