Histórias da vida, paixão e criatividade são ingredientes fundamentais nas receitas do chef Antonio Maschio - fundador do lendário restaurante Spazio Pirandello, em São Paulo -, que desde ontem está em Londrina, coordenando uma oficina de gastronomia no Festival Internacional (Filo). No curso ‘‘Feira da Lua, Comida de Rua’’, Maschio está ensinando como preparar pratos de qualidade com pouco dinheiro. A primeira experiência, ontem à noite, estava agendada para a Feira da Lua do Zerão, e será repetida hoje, na Avenida Inglaterra.
Ao chegar a Londrina, Antonio Maschio logo foi às compras – na feira. Escolheu todos os ingredientes para os pratos preparado pelos 30 participantes da oficina, calculando um custo final de R$ 10,00 (cada). ‘‘Estamos trabalhando com coisas que existem na cidade. Não adianta mexer com ingredientes que não vamos encontrar – o que não nos impede de criar. O olhar dessa criação é o mais importante’’.
Para cardápio de ontem estava programado o preparo de três pratos. O primeiro, Creme Mantovana, é uma referência à cidade de Mântova, na Itália. ‘‘Este prato foi elaborado pela escritora Gertrude Stein e readaptado por mim. É um creme feito com abóbora e ricota defumada, servido com casca de laranja ralada’’, relata.
Em seguida, o prato principal: Risoto de Laranja com Azeitonas Verdes, uma criação do próprio chef, que faz uma homenagem ao artista Pablo Picasso. ‘‘Enquanto pintava, ele tinha cestas de laranja e azeitonas em sua volta no atelier. Adorava!’’, conta.
O chef salienta que além de trabalhar o paladar, faz questão de salientar a cor, a aparência dos pratos. ‘‘É como se fosse uma oficina de pintura. A gente, primeiro, come com o olhar. E em qualquer classe social’’, ressalta.
Para a sobremesa, Maschio preparou banana assada com açúcar mascavo, canela, laranja e leite de coco. Mais uma homenagem, desta vez ao artista plástico brasileiro Alberto da Veiga Guinard. ‘‘Ele adorava comer em Minas Gerais – onde viveu – banana com queijo fresco. O meu prato é uma reelaboração desta receita’’.
Antonio Maschio faz questão de frisar que o ato de cozinhar é um ato de paixão. ‘‘Qualquer um que tenha isso pode se dar bem. A única regra básica é nunca exceder no sal’’, avisa. Por isso as receitas são temperadas com histórias de artistas e de sua própria vida.
Nascido em 7 de julho de 1947, Antonio Maschio descobriu a magia da cozinha através de um meio um tanto difícil: a fome. Nascido em São José do Rio Preto, aos 12 anos foi trabalhar em um restaurante de São Paulo, como lavador de pratos. ‘‘Não tinha comida em casa. E eu era o arrimo, pois meu pai acabava de sair de casa’’, lembra. Neste restaurante, Maschio garantiu a comida e conseguiu sua iniciação. ‘‘Nunca mais parei de cozinhar, pesquisar e querer entender a culinária. É pela comida que se entende a humanidade’’, acredita.
Nessa pesquisa, Maschio descobriu as ligações da comida com as artes. Como o exemplo de Picasso, que depois de comer um peixe frito, pegou todas as sobras e imprimiu num prato de cerâmica que estava trabalhando.
Em 1970, Antonio Maschio foi para a Itália, exilado, e passou a ganhar a vida fazendo feijoada em casas de amigos. ‘‘Certa vez fiz uma para os 200 convidados de um conde italiano. Ganhei dinheiro para me sustentar o ano todo’’, lembra. Nesse tempo, aproveitou para fazer cursos, dar palestras e trabalhar como ator.
De volta ao Brasil, o chef resolveu ser bancário, ‘‘por não achar a ocupação no restaurante digna’’. Começou a cursar Ciências Sociais na Universidade de São Paulo em 1968, mas não concluiu. Comprou um açougue na periferia de São Paulo. Faliu. Na mesma década, o teatro tomou conta da sua vida. ‘‘Passei pelo Arena, pelo Oficina... fui para a Europa’’.
Mas foi somente 10 anos depois que Antonio Maschio realizou seu maior sonho. Em 7 de janeiro de 1980, abriu as portas do Spazio Pirandello, um mix de bar, restaurante, galeria de arte, livraria, casa de leilões e o que mais viesse. ‘‘O Pirandello, que chegou junto com a abertura democrática, marcou toda a década de 80 em São Paulo’’, relembra.
O chef era o responsável pelo cardápio da casa e, segundo ele, também cuidou por longo período da ‘‘loucura do inconsciente coletivo da cidade’’. Maschio lembra ainda como criou, com Caio Graco, a grande marca dos anos 80: o amarelo das Diretas Já. ‘‘Convocamos várias pessoas para um encontro no Pirandello e na chegada distribuimos fitas amarelas. A atriz Lélia Abramo usava um xale amarelo. E cada pessoa que ia falar ao público acabou usando o mesmo xale. A imprensa noticiou isso e, um mês depois, toda a cidade estava coberta de amarelo’’.
O Pirandello tinha múltiplas funções e era considerado uma continuidade da casa das pessoas, como afirma Maschio. ‘‘Chegamos a fazer simpósios políticos, um leilão para pagar um transplante de medula de um garotinho. Fomos o primeiro local em São Paulo a fazer um leilão em prol dos aidéticos, em 1984. O Pirandello era muito mais que um bar, era um espelho da cidade’’.
Em dezembro de 1989, chegava ao fim o sonho do Pirandello. ‘‘Eu e meu sócio passamos o lugar para os funcionários. O Pirandello foi a grande realização da minha vida, mas chegou à exaustão. Nunca mais voltei. A vida é assim’’. O restaurante funcionou até 1997.
Desde então, Maschio se envolveu em diversas atividades, sempre pautado pela culinária. Morou em Tiradentes (MG), fazendo escultura em pedra-sabão, voltou a São Paulo para trabalhar na campanha de Mário Covas ao Governo do Estado – tucano convicto, diz assumir os erros, riscos e conquistas – e finalmente, assumiu o cargo de diretor de atividades culturais da Fundação Memorial da América Latina, onde permanece até hoje.
O próximo projeto já está em andamento: a Cozinha Itinerante de Antonio Maschio. ‘‘Não é um bufê, vou cozinhar na casa das pessoas, participar do almoço, contar histórias. A vida sem histórias não tem validade’’.

mockup