A combinação de ousadia gráfica e audácia editorial manifesta-se mais uma vez nas páginas da revista londrinense Coyote. O segundo número será lançado hoje no bar Joke Joint, na Vila Madalena, em São Paulo. Em Londrina, a festa está programada para a próxima segunda-feira, na Biblioteca Pública.
Coyote prioriza a literatura, mas abre espaço para a filosofia e as artes visuais. Herdeira das revistas de invenção, cuja tradição remonta à década de 20 do século passado, a publicação cumpre o papel que deveria ser do jornalismo cultural repercutindo artistas e autores de ponta.
O dramaturgo Mário Bortolotto é o principal destaque da edição recebendo 8 generosas páginas incluindo entrevista e fragmentos de textos. Ao ser questionado sobre suas preocupações em inovar a linguagem do teatro, ele ironiza.
''Ah, eu não. Já tem gente demais preocupada com isso. Vou fazendo o meu teatro de maneira que eu possa sentir orgulho, pra sair do buraco mesmo. Se pintar alguma coisa nova, pode crer que foi acidente. Eu não perco o meu sono com isso'' responde.
Outro londrinense presente é Domingos Pellegrini, que mostra sua produção poética. Num dos 4 sonetos, escreve: ''A carne quando nova, que beleza / mas vem o tempo com rugas varizes / cascas cansaço calos cicatrizes / careca corcunda cegueira surdez / Olhar sem brilho, gesto sem leveza / à tarde saudade dos dias felizes / à noite a respiração em crise / um dia a menos, única certeza / Valeu a pena viver para isso? / e valerá a pena viver mais? / Mas a carne resiste, eis a verdade:/ agarra-se a sopas e ao suspiro / dorme com medo de não acordar / e quando dorme enfim, que dignidade''.
A poeta argentina Tamara Kamenszain ganha tradução de Claudio Daniel, que a apresenta como uma herdeira bastarda do surrealismo e do neobarroco, as duas principais vertentes da poesia latino-americana do século passado. O irlandês Samuel Beckett (1906-1989) comparece com seu último poema, ''Qual a Palavra'', que escreveu primeiramente em francês e depois traduziu para o inglês. A versão para o português é de Rodrigo Garcia Lopes.
O norte-americano Jim Dodge, poeta que vive num sítio sem eletricidade no interior da Califórnia, é uma das surpresas da edição com a tradução de Joca Reiners Terron para seu poema ''O Banqueiro''. A poesia é contemplada ainda nos versos de Jairo Pereira (de Quedas do Iguaçu, PR) e na construção erótico-visual do cineasta Sylvio Back.
O bloco de textos em prosa traz contos do niteroiense Jorge Cardoso e dos paulistas Nelson de Oliveira, Contador Borges e Ivana Arruda Leite. O mineiro Eustáquio Neves, autor da capa da revista, experimenta técnicas fotográficas em quatro trabalhos que tematizam o caos urbano. Um ensaio de Steven F. Butterman sobre a obra do poeta Glauco Mattoso completa o cardápio da publicação, cuja abertura traz uma impactante sentença do filósofo austríaco Ludwig Wittgenstein: ''Você pode dar um preço aos pensamentos. Alguns custam muito, outros só um pouco. E como alguém paga pelos pensamentos? A resposta, acho, é esta: com coragem''.
Coyote é editada por Marcos Losnak, Rodrigo Garcia Lopes e Ademir Assunção com a colaboração do poeta e designer gráfico Joca Reiners Terron. Tem tiragem de mil exemplares, periodicidade trimestral e distribuição nacional pela editora Iluminuras. É bancada pela Lei Municipal de Incentivo à Cultura, cujo projeto prevê mais duas edições até o final do ano. Estará à venda a R$ 5,00 em Londrina e a R$ 10,00 em outras cidades.

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