Coutinho parte da fé para fazer radiografia do Brasil
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sábado, 14 de agosto de 1999
Por Luiz Zanin Orichio 
Gramado, RS, 15 (AE) - Em raro momento de descontração, o diretor Eduardo Coutinho diz que apela a todos os santos quando viaja de avião. Coutinho é tido como seco e despojado como um Graciliano Ramos do cinema. É rigoroso como o escritor alagoano. Tão rigoroso na avaliação da própria obra quanto na apreciação dos seus críticos. "Se todo mundo gostar do filme, vou ficar muito preocupado", diz em relação a "Santo Forte", seu novo documentário, sobre a religiosidade brasileira, vencedor do Prêmio Especial do Júri. E acrescenta: "Alguns elogios me incomodam ao invés de me agradar, como o de uma senhora que me agradeceu por lhe ter mostrado um lado pitoresco do País."
De fato, não há nada de pitoresco desse retrato do Brasil feito a partir dos depoimentos da experiência religiosa de 15 personagens, reduzidos no fim a 11. Coutinho filmou (na verdade gravou em vídeo e somente depois passou para o suporte película) em uma única locação, a Favela Parque da Cidade, na zona sul do Rio. São falas pungentes, densas, às vezes engraçadas, tiradas de uma situação que não esconde as suas condições de realização. Ouve-se a voz do diretor fazendo as perguntas. Por vezes, vê-se a câmera gravando. Estão registrados os momentos em que a equipe paga, em dinheiro, o depoimento dos personagens. O documentário sai desse encontro entre uma pessoa que está ouvindo e outra que fala, ambas mediadas pela presença da câmera. Essa condição não é escondida em nenhum momento.
Na verdade, como diz o diretor, "Santo Forte" é mais uma secção (no sentido anatômico do termo) da sociedade brasileira, feita a partir do viés da religião. Quando as pessoas depõem sobre sua relação com crença, aparecem os outros componentes da sua articulação social - as condições de classe, de cor, educação, etc. É uma radiografia bastante completa de um segmento do edifício social brasileiro, aliás o seu segmento majoritário: o indivíduo pobre, digno, esperançoso. Coutinho recusa os filmes de tese. Não quer demonstrar nada, sobretudo não deseja fazer uma teologia sobre celulóide: "Não posso mostrar Deus, isso não pode ser representado." Também não deseja levar uma mensagem positiva ou idealizar seus entrevistados. A "mensagem" de "Santo Forte" é aberta e por isso pode desagradar a muita gente: "É incômodo, exige que se pense a respeito e não traz respostas prontas", diz.


