Courtney Love na intimidade
PUBLICAÇÃO
domingo, 09 de novembro de 1997
Guto Barra 
Planet Pop-AE
Os detalhes sobre a vida de Courtney Love acabam de aparecer em um livro que retrata toda a trajetória da ex-junkie e viúva de Kurt Cobain transformada em atriz de sucesso. Courtney Love: the Real Story, de Poppy Z. Brite (Ed. Simon & Schuster), revela a intimidade de um dos casais mais intrigantes do pop nos últimos anos, cobrindo desde a infância da cantora até a conquista de Hollywood, passando pelos detalhes do suícidio do líder do Nirvana, aos 27 anos.
Courtney teve uma das trajetórias mais curiosas do pop dos anos 90. O livro vem fazer justiça ao seu trabalho e analisar um pouco suas atitudes nas últimas semanas de vida do músico. Ela foi ficando conhecida como a companheira do messiânico Cobain, sempre associada a confusões, uso de drogas e comportamento punk. Transformada em celebridade pegando carona na fama do Nirvana, a roqueira viu sua banda, Hole, ficar em segundo plano perto das imagens impressionantes em que era vista em público. Com cabelos desgrenhados, make-up borrado e roupas imundas, Courtney ganhou a simpatia do público por formar um casal perfeito com o depressivo Cobain.
Depois de aparecer como a companheira do astro, estando presente nas internações do marido em hospitais e em fases de problemas com a polícia, Courtney ficou grávida e causou polêmica ao afirmar em entrevistas que não pretendia parar de usar heroína até o nascimento do bebê. Ela já havia revelado que na cerimônia de casamento dos dois, em 1992 no Havaí, o casal estava sob influência da droga. Com a morte de Cobain, em abril de 1994, quando ela estava internada em uma clínica de reabilitação de viciados, ela chegou no fundo do poço, sendo vista como uma mulher omissa que não se esforçou para salvar o marido de suas paranóias. Quando ninguém esperava, o Hole passou a fazer sucesso e ela começou uma promissora carreira no cinema, aparecendo em uma ponta no filme Basquiat e se consagrando, mais tarde, em O Povo Contra Larry Flynt.
O autor O aguardado livro que conta a história de Courtney foi escrito por um amigo da cantora, que teve acesso ao diário dela e a revelações de inúmeros amigos do casal. O volume é uma boa chance de compreender o relacionamento dos dois e a impotência de Courtney em relação à crescente dependência de Cobain pela heroína. Ela é retratada como uma mulher forte, mas não o suficiente para tirar o marido da depressão, e muito apavorada para controlar o próprio vício em drogas variadas. Sua personalidade é analisada com atenção nas últimas semanas de vida do músico.
Brite começa contando detalhes da atrapalhada criação de Courtney, que passou a infância entre internatos e reformatórios. Sua mãe ganhou a custódia dela depois que alegou que o ex-marido deu LSD para a filha, que tinha apenas quatro anos na época. O livro diz que ela era ridicularizada na escola por usar sempre roupas sujas e foi repreendida ao voltar da casa do pai, aos 13 anos, cheirando a maconha. Antes de ir para Seattle, onde acabaria conhecendo Cobain, ela passou por clubes de strip-tease de Los Angeles e Tóquio e pela cena punk de Liverpool.
Cotidiano difícil Mas os melhores trechos de The Real Story são os que cobrem os últimos meses de vida do líder do Nirvana. Logo depois da gravação do disco In Utero, em Minnesota, em 1993, Cobain foi hospitalizado por uma quase overdose. Semanas depois, ele começou a entrar em uma paranóia de estar sendo perseguido e comprou diversas armas. Em seguida, voltou a sofrer fortes dores no estômago, em consequência de uma úlcera, e ficou deprimido, dando início a uma longa fase de uso constante de tranquilizantes. No início de 1994, época em que comprou uma nova casa em Seattle por US$ 1,485 milhão, ele voltou a usar heroína com frequência.
Os problemas aumentaram quanto o Nirvana teve que iniciar uma nova turnê pela Europa, em fevereiro, contra a vontade de Cobain. Ele começou a ter problemas de saúde, em consequência de uma laringite, e a banda teve de adiar vários shows. Em uma das noites de folga em Roma, ele tomou 50 tabletes de Rohypnol, um poderoso remédio para dormir, enquanto Courtney descansava ao seu lado. De acordo com ela, o músico tinha um bilhete em sua mão que dizia Você não me ama mais, prefiro morrer do que aguentar um divórcio. Quando ele se recuperou, ela garantiu a Cobain que não iria deixá-lo. Ele não vai se livrar de mim assim tão facilmente, disse ela a uma amiga. Eu vou continuar atrás dele até o inferno, se for preciso.
De acordo com a história contada no livro, as semanas que se seguiram não estavam muito longe do que se imagina ser o inferno. Poppy consegue reproduzir o ritmo alucinante da viagem que acabou com morte de Cobain. De volta a Seattle, Courtney passou a tentar controlar o uso de drogas do marido sem sucesso. Ele adicionou ao uso da heroína o consumo de outros tranquilizantes e anfetaminas, chegando a ficar uma semana sem dormir. Em março, durante um momento de desespero, ela chamou a polícia porque ele havia se trancado em um dos banheiros da casa com várias armas, ameaçando se matar. Os policiais chegaram a tempo e confiscaram seus revólveres e as drogas. Logo depois, ela e os amigos mais próximos, incluindo os companheiros de banda Dave Grohl e Krist Novoselic, tentaram uma intervenção: ficaram durante cinco horas tentando convencer Cobain a mudar de vida. Segundo o livro, foi nesse momento que Courtney percebeu que só um milagre poderia evitar que o músico cometesse o suicídio.
Sua nova tentativa foi convencê-lo a se internar na clínica de recuperação de drogados Exodus, em Los Angeles. Ele concordou, mas quando a ambulância chegou para buscá-lo, acabou desistindo agressivamente. O autor conta que Courtney percebeu que o único jeito seria ela se internar, para que ele seguisse o mesmo caminho depois. Assim, ela se instalou no Beverly Hills Hotel, com sua filha, Frances Bean, e sua babá, Jaquie. Nos dias seguintes, ele ligou várias vezes para o hotel dizendo que havia concordado em se internar. No lugar de pegar um avião para Los Angeles, ele ficou vagando por Seattle com uma aparência assustadora, de acordo com descrições de seus amigos. Um deles, Dylan Carlson, chegou a acompanhá-lo em uma loja onde ele foi comprar uma pistola. Carlson diz que, mesmo percebendo o estado do músico, acreditou quando ele disse que precisava da arma para se proteger de ameaças de morte.
Cobain acabou se internando na Exodus, de onde acabou fugindo alguns dias depois. Em sua última conversa telefônica com Courtney, ainda da clínica, ele disse: Não importa o que acontecer, eu quero que você saiba que fez um ótimo álbum. Ela teria perguntado porque ele estava dizendo aquilo: Não importa o que acontecer, quero que saiba que amo você, disse ele. Como ela achava que ele ainda estava em Los Angeles, ela passou a procurá-lo na casa de traficantes e roqueiros amigos, sem sucesso.
Na manhã do dia 7 de abril de 1994, Courtney foi presa no hotel depois de denúncias de que ela estava muito agitada. Em seu quarto, todo manchado de vômito e sangue, a polícia achou uma seringa com um líquido que julgou ser heroína. Mais tarde ela foi liberada depois que ficou constatado que o conteúdo era, na verdade, um produto indiano natural. Ela acabou sendo internada na Exodus, a conselho de David Geffen, dono da gravadora do Nirvana e do Hole. Sua esperança era que Cobain aparecesse de vota à clínica. No dia 8, quando sua advogada, Rosemary Carrol, entrou em seu quarto, Courtney diz que percebeu que Cobain havia morrido. Ela achava que era em consequência da overdose e ficou supresa ao saber que ele havia disparado um tiro contra a cabeça.
Mas Courtney Love: the Real Story não se prende apenas ao relacionamento da cantora com Cobain. Há capítulos dedicados ao crescimento do sucesso do Hole, que fez uma longa turnê mundial em 1995 que deu origem a um disco ao vivo, seu envolvimento com o cinema e seus relacionamentos com Billy Corgan - o líder dos Smashing Pumpkins - e mais recentemente com o ator Edward Norton (de O Povo Contra Larry Flynt e Todos Dizem eu te Amo).
Os próximos meses devem marcar a consagração de Courtney. Depois de sair na capa da revista Harpers Bazaar de setembro, sendo apontada como a mulher mais influente do estilo norte-americano no momento, e aparecer ao lado de Tina Turner e Madonna na edição de 30 anos da Rolling Stone, ela está terminando o novo disco de sua banda e tem diversos projetos cinematográficos pela frente. Recuperada de seu vício em heroína e dissociada da imagem de Cobain, ela tem tudo para se tornar uma das maiores estrelas dos anos 90.


