Em 1997, os dinossauros de Spielberg devoraram 100 % das telas coreanas. Mas a reação não demorou: em 20 anos, a cota de tela para o país passou a 146 dias/ano

Em duas décadas, a Coreia passou de uma pequena quota de mercado nacional de 2,1% em 1994 para atingir a significativa marca de 57% em 2014, ou seja, uma quota de mercado nacional superior à de países que investem fortemente na cultura, como a França, que obteve 36,8% nesse mesmo ano. Isso demonstra que as políticas públicas adaptadas às especificidades nacionais, que consideram amplamente todos os atores da cadeia produtiva, elevaram a Coreia ao nível de consumo nacional de suas obras audiovisuais alcançado apenas por dois países: Estados Unidos e Índia, únicos com mais da metade do market share nacional no mesmo ano, por exemplo.

E em 1994 houve o chamado "caso Jurassic Park". Este fato emblemático chamou a atenção das autoridades e dos gestores políticos sul-coreanos, não só pela massiva dominação cultural, mas também pelo volume de divisas perdidas para o mercado norte-americano, que equivalia a 1,5 milhões de automóveis Hyundai. Atualmente, de acordo com a lei coreana, os cinemas locais na Coreia devem exibir filmes coreanos durante pelo menos 146 dias por ano. Em 1998, esta cota de exibição tornou-se objeto de acalorado debate entre os Estados Unidos e a indústria cinematográfica coreana (que ressurgia com força no quadro produtivo), quando os Estados Unidos exigiram que a Coreia a abolisse.

Em 1997, "Jurassic Park' devorava as telas do cinema coreano, uma situação revertida com as cotas de tela que obrigam a exibição dos filmes do país asiático, em seu próprio território, 146 dias por ano
Em 1997, "Jurassic Park' devorava as telas do cinema coreano, uma situação revertida com as cotas de tela que obrigam a exibição dos filmes do país asiático, em seu próprio território, 146 dias por ano | Foto: Divulgação

Os Estados Unidos acreditam que a quota viola os princípios do comércio livre, enquanto a indústria cinematográfica coreana, com razão, argumenta que os produtos culturais, como os filmes, não podem ser equiparados a outros produtos comerciais. As identidades culturais devem ser protegidas porque uma cultura global diversificada beneficia a todos. As indústrias cinematográficas nacionais devem ser protegidas porque os filmes constituem um veículo de transmissão de valores culturais. Uma forma de promover a cultura coreana, ou de qualquer país, é encorajar a produção de filmes que retratam a cultura local e garantir que esses filmes sejam comercialmente viáveis.

A cota de exibição da Coreia não garante que os filmes coreanos retratem a cultura coreana; em vez disso, apenas exige que os filmes feitos na Coreia sejam exibidos nos cinemas. A cota de cinema também é problemática, porque incentiva a complacência por parte da indústria cinematográfica coreana em relação aos concorrentes nacionais e globais. Os subsídios governamentais ligados à qualidade do filme e ao conteúdo cultural, por outro lado, promoveriam a cultura coreana e garantiriam que os filmes coreanos fossem comercialmente viáveis.

Na Europa, os subsídios provaram ser eficazes para estimular as indústrias cinematográficas nacionais a produzir filmes de qualidade que sejam comercialmente viáveis. Na Ásia, através de subsídios, o governo coreano pode garantir que a cultura coreana será preservada e promovida através do cinema. Prova disso são as dezenas de títulos que nestas duas primeiras décadas do século invadiram (no melhor sentido) as telas do mundo – filmes e séries e prêmios e precioso retorno de mídia. Que o digam “Parasita”, “Round 6” (só a Netflix anunciou há pouco investimentos de 3 bilhões de dolares no país) e a assinatura dos melhores cineastas coreanos em atividade febril. Quem está plantando está colhendo. E muito.

mockup