Cota de telas: o caso promissor da Coreia versus 'Jurassic Park'
Com adoção de cotas para seu cinema nacional, a Coreia do Sul valoriza sua produção em nível mundial
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 06 de setembro de 2023
Com adoção de cotas para seu cinema nacional, a Coreia do Sul valoriza sua produção em nível mundial
Carlos Eduardo Lourenço Jorge/ Especial para a FOLHA 

Em 1997, os dinossauros de Spielberg devoraram 100 % das telas coreanas. Mas a reação não demorou: em 20 anos, a cota de tela para o país passou a 146 dias/ano
Em duas décadas, a Coreia passou de uma pequena quota de mercado nacional de 2,1% em 1994 para atingir a significativa marca de 57% em 2014, ou seja, uma quota de mercado nacional superior à de países que investem fortemente na cultura, como a França, que obteve 36,8% nesse mesmo ano. Isso demonstra que as políticas públicas adaptadas às especificidades nacionais, que consideram amplamente todos os atores da cadeia produtiva, elevaram a Coreia ao nível de consumo nacional de suas obras audiovisuais alcançado apenas por dois países: Estados Unidos e Índia, únicos com mais da metade do market share nacional no mesmo ano, por exemplo.
E em 1994 houve o chamado "caso Jurassic Park". Este fato emblemático chamou a atenção das autoridades e dos gestores políticos sul-coreanos, não só pela massiva dominação cultural, mas também pelo volume de divisas perdidas para o mercado norte-americano, que equivalia a 1,5 milhões de automóveis Hyundai. Atualmente, de acordo com a lei coreana, os cinemas locais na Coreia devem exibir filmes coreanos durante pelo menos 146 dias por ano. Em 1998, esta cota de exibição tornou-se objeto de acalorado debate entre os Estados Unidos e a indústria cinematográfica coreana (que ressurgia com força no quadro produtivo), quando os Estados Unidos exigiram que a Coreia a abolisse.

Os Estados Unidos acreditam que a quota viola os princípios do comércio livre, enquanto a indústria cinematográfica coreana, com razão, argumenta que os produtos culturais, como os filmes, não podem ser equiparados a outros produtos comerciais. As identidades culturais devem ser protegidas porque uma cultura global diversificada beneficia a todos. As indústrias cinematográficas nacionais devem ser protegidas porque os filmes constituem um veículo de transmissão de valores culturais. Uma forma de promover a cultura coreana, ou de qualquer país, é encorajar a produção de filmes que retratam a cultura local e garantir que esses filmes sejam comercialmente viáveis.
A cota de exibição da Coreia não garante que os filmes coreanos retratem a cultura coreana; em vez disso, apenas exige que os filmes feitos na Coreia sejam exibidos nos cinemas. A cota de cinema também é problemática, porque incentiva a complacência por parte da indústria cinematográfica coreana em relação aos concorrentes nacionais e globais. Os subsídios governamentais ligados à qualidade do filme e ao conteúdo cultural, por outro lado, promoveriam a cultura coreana e garantiriam que os filmes coreanos fossem comercialmente viáveis.
Na Europa, os subsídios provaram ser eficazes para estimular as indústrias cinematográficas nacionais a produzir filmes de qualidade que sejam comercialmente viáveis. Na Ásia, através de subsídios, o governo coreano pode garantir que a cultura coreana será preservada e promovida através do cinema. Prova disso são as dezenas de títulos que nestas duas primeiras décadas do século invadiram (no melhor sentido) as telas do mundo – filmes e séries e prêmios e precioso retorno de mídia. Que o digam “Parasita”, “Round 6” (só a Netflix anunciou há pouco investimentos de 3 bilhões de dolares no país) e a assinatura dos melhores cineastas coreanos em atividade febril. Quem está plantando está colhendo. E muito.


