Costner em inferno astral
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 20 de junho de 2002
Carlos Eduardo Lourenço Jorge<BR>Especial para a Folha 2 
Até 1995 um dos nomes de maior poder no ranking hollywodiano, Kevin Costner é um dos casos mais estranhos de verticalização descendente na indústria cinematográfica.
A maldição começou com o naufrágio de Waterworld - O Segredo das Águas e hoje, decorridos sete anos e meia dúzia de infrutíferas tentativas, o ator-diretor mal sobrevive como elogiosa referência do passado recente, quando títulos como Os Intocáveis, Robin Hood e Dança com Lobos conheceram glória e fortuna. Agora, o lançamento nacional de O Mistério da Libélula somente enfatiza este perfil crepuscular.
O infortúnio de Costner-ator prossegue aqui com um thriller sobrenatural que inicia com aspirações a Sexto Sentido mas termina como espécie barata de mal resolvido telefilme do além. Costner é Joe Darrow, médico de Chicago traumatizado depois que a mulher Emily (Susanna Thompson), médica pediatra oncologista e grávida de seis meses, morre em acidente de ônibus nos confins da selva venezuelana durante missão humanitária de emergência. Passados seis meses, ele ainda não se recuperou e seu patrão ordena férias. É quando fatos estranhos acontecem: um peso de papel (a libélula do título) que pertencia a Emily estilhaça sem explicação, o papagaio de Joe o ataca de repente e as crianças que eram pacientes terminais da mulher voltam de experiências de uma quase-morte com mensagens de além-túmulo. Com tais indícios, Joe desconfia que a mulher está tentando se comunicar com ele. Suas suspeitas são confirmadas por uma freira católica (Linda Hunt) expert em paranormalidade. E Joe segue para a Venezuela a fim de esclarecer o mistério.
Apesar da presença enganosa de alguns truques batidos do repertório de filme de horror de segunda linha - olhos de um morto que se abrem de repente, vozes espectrais, efeitos musicais dissonantes, rajadas de vento despertando o herói no meio da noite -, o diretor Tom Shadyac remete seu material para o território do melodrama piegas, daquela mesma espécie oferecida em seu filme anterior, Patch Adams - O Amor é Contagioso. Grotesco durante cerca de 40 minutos iniciais, quando Joe/Costner vagueia ao redor das crianças moribundas não para ajudá-las mas para ajudar a si mesmo - é evidente que ele quer algo delas -, o filme evolui (!?) para um clímax que resulta meramente ridículo. Como mensagem espiritual - e até pode ter sido a idéia original do trio de roteiristas, O Mistério da Libélula não passa de risível maquinação sentimental.


