Cortejo abre o 7º Percpan, amanhã, em Salvador; festival terá edições também em SP e Paris
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segunda-feira, 10 de abril de 2000
Por Mauro Dias 
São Paulo, 11 (AE) - O Panorama Percussivo Mundial, Percpan, começa amanhã (12), em Salvador, com um cortejo que sai
no comecinho da noite, do Passeio Público e vai até o Campo Grande, parando na praça em frente do Teatro Castro Alves. Os desfilantes serão fanfarras, filarmônicas, pernas-de-pau, percussionistas mirins do Olodum, do Ilê Ayê, da Timbalada, de Malê de Balê. Na praça será encenada uma ópera percussiva - é assim que o encontro de tambores, ao ar livre, é chamado pelos diretores do festival, o percussionista Naná Vasconcelos e o compositor e cantor Gilberto Gil.
O Percpan está na sétima edição. Cresceu. No início, durava três dias e não havia espetáculos fora do teatro. No ano passado, durou quatro dias, tendo sido aberto com um belo desfile, integrado por alguns dos que participarão do deste ano e também pelas atrações estrangeiras. Agora, com cinco dias - vai de amanhã a domingo -, o espetáculo de encerramento será na Concha Acústica do Teatro Castro Alves, com todas as atrações - todos os tambores - em cena. Além disso, o festival satisfaz um antigo desejo de seus promotores: vem a São Paulo, nos dias 19 e 20, com uma versão compacta do que houver sido mostrado em Salvador. Os espetáculos paulistas terão lugar no Teatro Alfa.
Em Paris - Não é só. O Percpan, que já é aceito internacionalmente como o mais importante dos festivais de percussão, vai também a Paris. De 26 a 28 de maio, serão apresentados shows só de artistas brasileiros, no Parc de La Villette. Gilberto Gil, Naná Vasconcelos e 150 percussionistas do Ilê Ayê farão a abertura da festa, no dia 26, ao ar livre.
Haverá shows também no Grande Halle da Cité de la Musique, a Cidade da Música. A programação francesa inclui apresentações de Maria Bethânia, Lenine, dos grupos Pife Muderno e Nau Brasil, de Alceu Valença e de Martinho da Vila, que cantará com um grupo de Folia de Reis. Egberto Gismonti reprisará na França o espetáculo que apresentou em Salvador, no ano passado, ao lado do cacique camaiurá Sapaim e de seu grupo de índios do Xingu.
A programação francesa foi especialmente articulada e lança mão de artistas daqui já conhecidos por lá. Não todos, mas quase. Gil, Bethânia, Egberto, Naná têm bom público em toda a Europa, bem como Alceu Valença e Martinho da Vila. De quebra, entram na dança a Folia de Reis, o Ilê Ayê, os índios do Xingu. O pretexto para a viagem do festival foi a comemoração dos 500 anos do Descobrimento do Brasil.
Embora se concorde sobre a excelência da sede do festival, Salvador, sempre houve vontade de montá-lo em outras partes. A barreira era econômica. O patrocinador é, desde o início, o governo baiano, via Secretaria de Cultura e Fundação Cultural. Nos dois últimos anos, agregou-se outro patrocinador, a Copene (lançando mão dos incentivos fiscais). Esse novo alento financeiro e a importância crescentemente reconhecida do festival foram decisivos para que se fizesse a edição em São Paulo. Muitos dos principais jornais do mundo destacam jornalistas para acompanhar o Percpan, já há alguns anos. Mas a edição paulista será limitada aos shows. Não haverá workshops e oficinas, nos quais se trocam, em Salvador, informações culturais, nem a confraternização dos visitantes locais com os centros de tambor tradicionais da capital baiana. Esses encontros são marca importante do festival, embora nem sempre sejam abertos ao público. As oficinas e os workshops são acompanhados por estudantes de música.
O festival foi criado e é produzido por uma socióloga, Beth Cayres. Examinar as similaridades dos tambores do mundo era sua tese de mestrado. Depois de quase um ano de pesquisas, percebeu que tinha um grande encontro a programar. Surgia, em 1994, o primeiro Percpan. A edição inaugural teve direção artística do músico paranaense, radicado em São Paulo, Arrigo Barnabé. No ano seguinte, Naná Vasconcelos assumiu o posto. Em 1996, juntou-se a ele Gilberto Gil. Naná é uma espécie de embaixador mundial da percussão.
Além de ter importante trabalho (em vários pontos do mundo, também no Brasil) com musicalização de crianças (alguns grupos são de deficientes; outros, não). Ninguém melhor do que ele para montar os elencos do festival. Gilberto Gil entra com a parte de organização, de direção musical, de cena. A fronteira entre o trabalho de um e outro é tênue. Completam-se, harmonizam-se. Necessariamente: o Percpan traz ao Brasil gente do mundo inteiro, tocadores de tambores de lugares tão distantes quanto a Índia ou a Costa do Marfim, Senegal ou Ilha da Reunião, Hungria ou - este ano - os pigmeus Aka, da República Centro-Africana. Nomes internacionais - Eis a relação das atrações internacionais escaladas para o Percpan 2000: Rita Marley, viúva de Bob Marley, nascida em Cuba, criada na Jamaica, fundadora do grupo feminino The Soulettes e do I-Three, também só de mulheres, que fazia voz de fundo para os Wailers, de Bob. The Davelyl Kumina Group, também da Jamaica, só que de músicas do ritual Kumina - faz um gênero de música conhecida como mento. De Marrocos, visita-nos Hassan Hakmoun; sua música é tipicamente marroquina, mas Hassan já chegou até a gravar um disco com o Kronos Quartet, de música contemporânea.
Os pigmeus Aka são um dos povos mais antigos do continente africano. São nômades e sua música tem fundo religioso. Informa-se dela que é sofisticada e eles tocam apitos feitos de talo de mamoeiro, mini-harpas talhadas à mão. O Map Marimba Girls Plus vem de Botsuana - de acordo com a tradição rígida do país, as mulheres não poderiam tocar marimbas. O grupo conseguiu burlar a norma e hoje tem a permissão, além de carreira internacional.
Vem da Espanha o Flamenco Native Ensemble, curiosamente criado, em 1978, por um brasileiro, Rubem Dantas. Foi ele o introdutor do cajón peruano na música cigana (Paco de Lucía logo adotou a novidade e convidou Rubem a participar de seu grupo. O Flamenco Native Ensemble tem cajóns, guitarras ciganas, um dançarino e um cantor flamenco. Completando o elenco internacional estão escalados o GupBlue Claze Mento, da Jamaica, o Tanbaka Djaz, da Guiné-Bissau, e Don Kikas, de Angola. Nacional - No elenco nacional estão Gilberto Gil e Naná Vasconcelos, mestres-de-cermimônia de todas as noites, as cantoras baianas Ivete Sangalo, Daniela Mercury e Margareth Menezes, a paraense Fafá de Belém, o grupo Nau Brasil, que homenageará os 500 anos do País, o Pegapacapá, que tocará com Cássia Eller, o Pandemonium, a Folia de Reis, as Ceguinhas de Campina Grande, da Paraíba.
No último dia, todos os artistas apresentam-se juntos, num espetáculo que costuma ser apoteótico. É o que se espera do festival, que jamais desmereceu a confiança.


