Corrupto bom é corrupto morto
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 11 de abril de 2011
Marcos Losnak <br> Especial para a Folha2 
Certo dia, diante das constantes falcatruas dos políticos corruptos, um grupo de pessoas decide limpar a sujeira com as próprias mãos. Revoltados com o império da impunidade, decidem acabar com um tipo de crime que contaminou o Brasil.
Certo dia, para eliminar o mal pela raiz, essas pessoas criam uma organização secreta intitulada Comando Terrorista Anti-Corrupção. O objetivo do grupo está concentrado num único ponto: assassinar políticos corruptos. O raciocínio é simples: já que o judiciário, legislativo e executivo não resolvem o problema e, em alguns casos, até o estimulam, nada mais lógico do que mandar com as próprias mãos os corruptos para o inferno.
Esse dia acontece em ''Todo Terrorista é um Sentimental'', romance de estréia do carioca Márcio Menezes que acaba de ser lançado pela editora Record. Sob o manto da ficção, o autor coloca no papel uma idéia que já deve ter passado pela cabeça de muitos brasileiros.
Tudo começa quando dois jovens amigos, no início da década de 90, presenciam a morte súbita de uma vendedora ambulante numa rua do Rio de Janeiro. Logo em seguida descobrem que ela foi uma das centenas de vítimas de uma máfia de medicamentos adulterados. Uma máfia chefiada por políticos especialistas em licitações fraudulentas.
Os dois, abalados por trombar com as reais consequências da corrupção política brasileira, decidem fazer justiça com as próprias mãos. Criam uma lista de bandidos com cargos políticos e planejam eliminar um por um. Com o lema ''melhor matar do que ver milhões sofrendo'', começam a realizar mirabolantes atentados a bomba.
O grupo, que vai ganhando novos adeptos, não atua com uma ideologia definida, nem de acordo com uma doutrina política. Anárquicos, os integrantes se revelam terroristas completamente amadores inundados em ingenuidades. E, acima de tudo, sentimentais demais para sangue e assassinatos.
Paralelamente, como jovens em busca de aventuras, vivem sob o tripé sexo, drogas & rock and roll. Nesse ponto a trilha sonora de toda a história é o destaque do romance. Em cada cena há um som rolando no toca disco ou no toca fita do carro. O rock, jazz e música brasileira do início de 1990 estão presentes em cada página.
Em ''Todo Terroristas é Sentimental'', Márcio Menezes apresenta clássica rebeldia juvenil sob a visão do lado de dentro. A confusão mental dos personagens, heróis fazendo justiça com as próprias mãos, representa o fracasso da política tradicional. Diante desse fracasso, tanto das frentes revolucionárias quanto das conservadoras, surge uma geração sem perspectiva. Uma geração que abraça a iluminação punk do ''faça você mesmo''.
Fica evidente que ''Todo Terroristas é Sentimental'', mesmo tentando ser verossímil, traz um caminhão de inverossimilhanças. E, curiosamente, trabalha essa contradição com bom humor para assinalar a transição da ''revolução das massas'' para a ''revolução individual''. Tudo para retratar a suposta origem dos atualmente chamados ''terroristas localizados''. Aqueles que acreditam que atos isolados se encontram em algum ponto de confluência para criar um mundo novo.
Esse desenho contemporâneo comporta tanto o cara que invade uma escola e atira e mata várias crianças em nome de um delírio, quanto o sujeito que resgata cachorros abandonados nas ruas da cidade em nome do aconchego. Tanto a garota que se converte ao vegetarianismo após ver um vídeo do Youtube documentando a morte de um boi no matadouro, quanto o menino que crava o canivete nos quatro pneus da diretora da escola.
Nesse sentido, ''Todo Terrorista é Sentimental" pode ser considerado um romance que aborda os mecanismos de ação de um bando de jovens malucos que estão justamente procurando entender como a ação individual pode reparar o mundo.
E cinicamente, como todo adulto tem conhecimento, reparar o mundo é uma invenção da juventude.
Os quatro políticos assassinados eram assassinos e criminosos dissimulados; matavam com uma assinatura, com uma tinte de caneta, não com uma escopeta. Praticavam o genocídio sem apertar a conexão de nenhuma bomba. Matavam em silêncio, matavam com desinteresse, sentados em luxuosos restaurantes entre garrafas de uísque e sopas de scargot. Lamentamos sinceramente a dor de seus familiares que nem sempre estavam cientes das atrocidades e negociatas praticadas por seus entes queridos. Mas preferimos matar um que rouba milhões do que ver milhões morrendo por causa de um. Dentro das próximas horas mostraremos dados estatísticos de que o dinheiro público, depois dessas mortes, será reinvestido em temas essenciais que julgamos ser de primeira ordem para o desenvolvimento do país: saúde e educação. Exigimos a mudança da Lei da Imunidade Parlamentar, que impede que o político corrupto seja julgado como um criminoso comum. Não pretendemos parar por aqui: a lista para futuros atentados é extensa, enquanto houver corrupção, haverá sangue.
(Fragmento de Todo Terrorista é Sentimental, de Márcio Menezes)
SERVIÇO
Autor - Márcio Menezes
Editora - Record
Páginas - 352
Quanto - R$ 42,90


