CORRUPÇÃO EM CENA
PUBLICAÇÃO
domingo, 07 de maio de 2000
Chiara Papali De Londrina Especial para Folha 2 
Trapaças, maracutaias, corrupção, crimes e misteriosos pactos com o demônio, estão na montagem de O nome do sujeito, que a Companhia do Latão, de São Paulo, apresenta hoje e amanhã, às 21 horas, no Teatro Núcleo 1 (Rua Quintino Bocaiúva, 1.243), dentro da programação do Festival Internacional de Londrina. Mas se esses elementos podem assustar a princípio não são motivos para preocupação nós brasileiros, infelizmente, estamos mais que acostumados com tudo isso no relacionamento humano e, principalmente, na política.
O espetáculo se passa no Recife imperial do século 19. Um barão fecha um contrato comercial que abre o Brasil ao capital estrangeiro, obriga uma escrava a satisfazer seus desejos sexuais, atropela e mata um mendigo simplesmente porque ele atrapalha a entrada da igreja e corrompe as pessoas sempre que necessário. Além disso, tem um puxa-saco de plantão, Wagner, que acredita que ele é um homem erudito, sempre metido com livros e entristecido com as coisas do mundo. Wagner idolatra o patrão e procura imitá-lo, no desejo de ascender a uma classe mais alta.
Ney Piacentini, ator e produtor do grupo, explica que a montagem faz um paralelo com o momento atual do país. Nós tentamos desenhar a formação do sujeito brasileiro, com características que se refletem até hoje, como, por exemplo, a troca de favores por dinheiro, explica. Uma característica interessante da montagem é que o personagem principal não aparece. Preferimos contar a história do ponto de vista dos personagens, inclusive para mostrar o reflexo das ações da elite da época.
A Companhia do Latão é um grupo de pesquisa teatral que estuda e aplica em seus espetáculos a dramaturgia crítica de Bertold Brecht (1898-1956), teatrólogo alemão, que sempre teve a preocupação ideológica de representar temas sociais. Outras características da poética Brechtiana também aparecem neste espetáculo na cenografia, no figurino e nos recursos narrativos. A composição do personagem é feita na frente do público, não existe coxia, e os atores representam mais de um personagem. Elementos cênicos no palco sugerem imagens uma corda pode ser um varal e depois uma mesa. Tudo isso estabelece com o público um distanciamento, fica muito claro que o que acontece é uma encenação.
A peça foi escrita pelo grupo entre 97 e 98, com base na sua metodologia de trabalho pesquisa com várias fontes (leitura, imagens, observação de rua), exercícios de narrativa, improvisação, criação e construção de cenas. Como fontes literárias utilizaram crônicas do livro Assombrações do Recife Velho, de Gilberto Freyre, e o poema dramático Fausto, de Goethe. O texto final e a direção do espetáculo são de Sérgio de Carvalho e Márcio Marciano.
O grupo Companhia de Latão ainda ministra a oficina A construção da cena épica, questionando visões elitistas da arte e focalizando aspectos da vida brasileira contemporânea, além de mostrar seu método de trabalho. A oficina acontece de 9 a 12 de maio, na Universidade Estadual de Londrina, das 14 às 17 horas para 20 alunos de artes cênicas. Ainda restam algumas vagas, e as inscrições podem ser feitas na Casa de Cultura (Praça 1º de Maio, 118). O preço é R$ 50,00.
O Nome do Sujeito, com a Companhia do Latão. Hoje e amanhã, às 21 horas, no Teatro Núcleo 1 (Rua Quintino Bocaiúva, 1.243). Ingressos a R$ 10,00 e R$ 5,00 (estudantes, funcionários da UEL e pessoas da terceira idade).


