CORRESPONDÊNCIA HISTÓRICA
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 22 de janeiro de 2001
Beatriz Coelho Silva Agência Estado 
A correspondência trocada entre o líder comunista Luiz Carlos Prestes (1898-1990) e sua primeira mulher, Olga Benário (1908-1942), vai chegar ao público até julho. As cartas foram escritas entre 1937 e 1943, período em que o casal esteve preso e separado: Prestes, no Rio de Janeiro, e Olga, num campo de concentração na Alemanha Nazista.
As cartas fazem parte de uma coleção de três volumes, contendo toda a correspondência particular de Prestes, que serão lançados pelo Arquivo Público do Estado do Rio de Janeiro, detentor de todo acervo da Polícia Política do antigo Distrito Federal. Prestes ainda ficaria preso até 1945 ano em que Getúlio Vargas concedeu anistia sem saber que sua mulher havia morrido na câmara de gás dois anos antes. Anita Leocádia, resgatada pela avó materna, só conheceria o pai aos nove anos.
Anita Leocádia e a irmã do líder comunista, Lígia Prestes, resolveram divulgar a correspondência do casal, reunindo cerca de 900 cartas. O primeiro volume saiu em setembro do ano passado com as cartas trocadas entre Prestes e suas quatro irmãs, sua mãe e alguns amigos, até 1942, os piores anos de seu cativeiro. O segundo livro, traz o restante das cartas, até 1945, e o terceiro, a correspondência trocada entre o líder e sua mulher, e também com seu advogado, Heráclito Sobral Pinto.
Aos 87 anos, Lígia fala com saudade do irmão. Essas cartas são o meu tesouro e eu sabia da importância delas. Quando meu irmão as escreveu, queria desabafar, dar notícias, sem qualquer pretensão literária ou intenção de publicá-las, conta ela.
Prestes e Olga eram militantes comunistas e membros da 4ª Internacional. Ele a conheceu em 1934, quando voltava de uma estada na União Soviétiva, onde fora, com a mãe e as irmãs, trabalhar como engenheiro civil e manter contatos com líderes comunistas. Olga, então experiente militante, foi encarregada de sua segurança.
O casal viveu livremente no Rio até 1935, ano em que caiu na clandestinidade. A Intentona Comunista, em 1935, teve como consequência uma caçada aos líderes do Partido Comunista Brasileiro (PCB). Os dois foram presos em 1936, quando Olga estava grávida. Ele ficou incomunicável no Rio, durante um ano, e ela foi deportada para a Alemanha, onde nascera e onde seria levada para um campo de concentração, por ser judia.
Só em 1937, depois de uma greve de fome, Prestes teve permissão para escrever para os amigos e a família. Embora esse direito lhe tenha sido negado em alguns períodos e toda a correspondência fosse censurada, o contato foi permanente.
Os dois trocavam carinhos e intimidades nesta correspondência. Ele a chamava de ma chere petite (minha querida pequena) e ela alternava Carlos e Karli, mas nunca deixava de antecedê-los por um querido. O tempo todo, Anita Leocádia era o principal assunto da correspondência. Ele me mandava também poesias e desenhos que encontrava, mas não podia falar de política, nacional ou internacional, porque era proibido, conta Anita. Apesar de os dois serem contidos, transparece nas cartas a grande paixão que os unia. Em nenhum momento eles são amargos com a situação em que viviam.
Anita viveu com a mãe no campo de concentração até os dois anos de idade, quando sua avó paterna, Leocádia, conseguiu resgatá-la após intensa campanha internacional. Mais tarde foram para o México, onde viveram até o fim do Estado Novo. Dona Leocádia morreria em 1942, sem voltar ao Brasil ou rever o filho. Só em 1945 Lígia voltou ao Brasil e, finalmente, Prestes viu a filha.


