O tom confessional domina a correspondência entre Cyro dos Anjos e Carlos Drummond de Andrade, que revelam tanto seu cotidiano familiar como os acessos de melancolia e depressão. ''Os eventos de natureza íntima superpõem-se aos fatos advindos das circunstâncias profissionais e políticas - as intrigas da vida literária, os meandros do favor no emprego público, as regras duras do jogo político, ao qual assistem como coadjuvantes ativos'', observam, no prefácio do livro ''Cyro & Drummond'', os organizadores Wander Melo Miranda e Roberto Said.
Os textos revelam bom humor dos autores, especialmente de Drummond ao retratar o Brasil para o amigo distante. Confira na entrevista com os pesquisadores.

A liberdade com que Drummond se expressa nas cartas é fruto da hierarquia estabelecida entre eles, ou seja, com Cyro comportando-se como aprendiz?
Fica evidente que Cyro se comporta como discípulo do poeta, mas parece ser a intimidade e confiança entre ambos o que leva Drummond a manter um diálogo franco com o amigo - ambos são compadres, se tratam por compadre -, livre para opinar sem os compromissos ou impedimentos relativos ao serviço burocrático-institucional e à vida literária. São antes de tudo dois amigos conversando, dois amigos escritores é claro, e mineiros, sabendo até onde a confissão das vivências pessoais deve e pode chegar.
As cartas, aliás, também são muito importantes para conhecermos o poeta, já que ele mantinha sua vida doméstica sob sigilo?
Na verdade, a vida doméstica, nas cartas, se mantém nos limites da rotina, do dia a dia, sem nada de excepcional. Nenhuma confissão mais delicada referente a problemas domésticos aparece nas cartas. Permanece até certa formalidade de Drummond, no caso. Cyro é mais aberto, se sente mais à vontade para falar de si e da família.
Drummond já se referira de forma tão incisiva a lançamentos de seus pares, como fez com romances de Rachel de Queiroz e José Lins do Rego?
Não, com tanta franqueza ao exprimir suas opiniões em relação aos pares não existia nada publicado até então. É preciso destacar que em nenhum momento Drummond ataca pessoalmente os pares; a crítica, quando é feita, é feita aos livros, à atuação da pessoa como escritor, não à sua vida privada. Há uma coerência nas opiniões de Drummond ao revelar sua visão estética e política do mundo.
Um dos aspectos mais importantes na troca de correspondência entre escritores está no registro do processo de criação. Nesse sentido, o que você considera mais notável nas cartas trocadas entre Drummond e Cyro?
A opção por uma literatura mais cosmopolita - mesmo tratando da província - distante dos excessos regionalistas, que Drummond abominava como tema e linguagem. Daí sua insistência em relação ao Amanuense, de Cyro, romance urbano que foge aos padrões da época, e se revela uma reflexão aguda sobre viver e escrever, sobre a difícil relação entre vida e arte, sobre a posição do intelectual no Brasil. É interessante o modo como compartilham uma perspectiva paradoxal que alia ceticismo e fé na força da literatura.
Não seria exagero dizer que se podem ler as cartas como ficção, ancorada na realidade, é claro: expectativas, possibilidades de criação e publicação se abrem e se realizam - ou se frustram?
As cartas são o relato de um período crucial da vida brasileira, do ponto de vista da política mineira e suas articulações nacionais. Formam uma trama que se pode ler como uma narrativa - não de ficção, mas no sentido de uma poética dos dois escritores atravessada pelas vivências pessoais. Basta comparar com a correspondência entre Drummond e Mário, para se notar o tom diferente, menos intelectualizado e programático, mais pessoal. (U.B./AE)

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