Correnteza barroca
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 17 de março de 2016
Geraldo Bessa<br>TV Press 
Fruto da crise de audiência do horário das nove que assola a Globo há dois anos, "Velho Chico" sinaliza novos rumos dentro da emissora. A premissa é incerta. E já começa com a ideia de reunir novamente o autor Benedito Ruy Barbosa e o diretor Luiz Fernando Carvalho, 14 anos depois do "naufrágio" de "Esperança". Em cena, a novela parece uma volta no tempo. Como se fosse uma simbiose entre "Renascer", de 1993, com a primeira fase de "O Rei do Gado", de 1996, a atual produção das nove recorre aos mesmos clichês e soluções narrativas para apresentar seus personagens e dramas, com direito a amores "shakespearianos", diálogos mais longos e densos e o uso de truques circenses, música e teatro de bonecos para poetizar sua dramaturgia.
Apesar das semelhanças, a novela vai além. Por ser o produto mais tradicional da emissora, o esperado é sempre o mais do mesmo. Ainda mais quando se trata da retomada de tramas rurais no horário. Mas Edmara e Bruno Barbosa, filha e neto de Benedito, pedem licença ao patriarca para atualizar sua já "batida" narrativa. O texto assinado pela dupla é recheado de sutilezas que se revestem bem com a direção de Luiz Fernando. No entanto, é na estética e nos delírios do diretor que residem o que há de melhor e mais confuso em "Velho Chico". Com cara de minissérie "cabeça" e cenas que exibem a pretensão e a vaidade de Luiz Fernando, a trama é uma das mais bonitas do horário em muitos anos. Porém, por vezes, se perde em sua beleza e edição não linear.
Parte essencial e que evidencia o cuidado artesanal do diretor com a trama, o elenco da primeira fase de "Velho Chico" se mostra muito bem conectado ao universo da novela. Boa parte disso se deve ao preciosismo da equipe de Luiz Fernando com um extenso processo de ensaios e uma direção de atores segura nas locações. Como resultado, fica impossível citar destaques esporádicos. De Tarcísio Meira, passando por Carol Castro, Fabiula Nascimento, Selma Egrei e chegando ao protagonista Rodrigo Santoro, todos mostram desempenhos renovadores, recheados de nuances e acima da média. Com uma história já vista, mas que mantém sua dignidade, "Velho Chico" é um sopro de criatividade e diferença em uma faixa combalida e esgotada. Resta saber se o público atual, tão ávido pela rapidez dos fatos, vai "embarcar" nesse rio.


