São Paulo, 11 (AE) - Um estudo sobre o acaso em ritmo aeróbico. Pedante ou não, a definição cabe direitinho em "Corra
Lola, Corra", do alemão Tom Tykwer. O filme concorreu em Veneza no ano passado e foi tido como dos mais originais. A informação tem lá sua relevância, mas deve ser relativizada, pois aquela mostra não ficará na história exatamente pelas novidades apresentadas na tela. Ao contrário. Num meio esteticamente conservador, "Lola", que estréia amanhã (12), se destaca. E sobressai pela transposição para o cinema de um problema que atormenta a humanidade desde que os ancestrais foram despejados do Paraíso e passaram ganhar o pão com o suor do rosto: por que tudo na vida acontece de uma determinada maneira e não de outra?
Digamos assim: se um determinado trabalhador levar um minuto a mais passando margarina no pão pela manhã, poderá se livrar de ser atropelado, o que aconteceria caso ele tivesse saído esse mesmo minuto mais cedo. No caso de Lola, vivida por Franka Potente, o problema é aparentemente outro. Ela namora um rapaz, Munni (Moritz Bleibtreu), que em má hora se envolveu com a máfia local. Uma das tarefas dele é transportar 100 mil marcos para seus chefes. Acontece que ele perde a grana. Se não der um jeito rápido, poderá perder também a vida. A namorada vai tentar ajudá-lo. Ela tem exatos 20 minutos para arrumar 100 mil marcos, senão vai ficar sem namorado. Tykwer segue Lola em seu percurso de 20 minutos por três vezes. A cada uma delas, acontece alguma coisa diferente. Ou seja, é a história olhada por três perspectivas temporais distintas. Pontos de vista - Nada de novo nisso, quer dizer, no conceito de relatividade, pelo menos desde "Rashomon", de Akira Kurosawa. Mas, no trabalho do mestre japonês, são pontos de vista de pessoas diferentes que põem em xeque a noção de realidade objetiva. No fundo, a pergunta de Kurosawa era a seguinte: "Se cada um vê de um jeito o que aconteceu, como estar seguro do que aconteceu realmente"? Em "Lola", a coisa é um pouquinho mais complicada. Por exemplo, o que se passa quando ela está correndo (e como corre...) atrás do dinheiro para salvar o namorado e dá um encontrão num desconhecido na rua?
Esse pequeno acidente de percurso, que faz com que ela perca alguns instantes preciosos, pode determinar o sucesso ou o insucesso da sua missão - ou seja, decidir se Munni vai viver ou vai morrer. Quer dizer, sabendo ou não, Tykwer está interessado num velho problema filosófico. Está se perguntando como o acaso e a necessidade se entrelaçam para dar formato a um destino humano. O paradoxo das pequenas causas que podem produzir grandes efeitos. Antigamente, dizia-se que o bater de asas de uma borboleta no interior da China podia deflagrar um maremoto na Flórida. Hoje, a obscura oscilação de uma moeda oriental põe na rua um chefe de família do ABC paulista. Causas remotas, porém eficientes.
Em "Lola", o que se tem é a ambição de flagrar várias possibilidades de acaso. Como se, cobrindo todas elas, ou pelo menos algumas delas, o diretor pudesse apreender parte desse mistério que é o destino humano. O filme tem várias fontes de referência, confessadas ou não. Uma delas é um conto de Jorge Luis Borges chamado "O Jardim dos Sendeiros Que se Bifurcam", em que duas pessoas podem ser amigas ou inimigas mortais, dependendo do caminho que decidem seguir em suas vidas. O outro é um filme de Alain Resnais, "Smoking no Smoking", baseado em uma peça inglesa, "Intimate Exchanges", de Alan Ayckbourn. Nela, a história vai mudando a partir de cada alternativa adotada pelos personagens. O título vem da primeira dessas alternativas.
Uma personagem sai ao jardim, vê um maço de cigarros sobre a mesa e fica em dúvida se deve fumar ou não. Na primeira versão, fuma; na segunda, deixa o maço fechado. As tramas seguem caminhos completamente diferentes segundo a opção feita. Fumar ou não fumar passa a ser uma decisão fundamental - e o filme não é exatamente veículo para campanhas antitabagistas. Se, como se viu, "Lola" não chega a ser revolucionário quanto à idéia, traz inovações interessantes em termos de linguagem, na maneira e estilo como conta a sua história.
Tykwer filma de maneira ágil - o longa é, como se disse, um tratado filosófico em ritmo aeróbico. Lola corre para lá e para cá, mas não apenas ela. A câmera adota esse ritmo e com ele contamina todo o filme. Tudo acontece na velocidade pauleira, embalada pela trilha sonora techno e com o predomínio de uma estética clipe. Mistura filmagem tradicional, em película, com vídeo, usa e abusa dos cortes rápidos e angulações pouco convencionais, tudo em função da correria da punk desesperada vivida por Franka Potente.
Numa das sequências já tidas como cult, Lola borboleteia em volta da mãe, sempre atrás de dinheiro, enquanto, num movimento rápido, a câmera mostra a televisão, na qual passa uma versão em cartum da própria personagem. Esses achados moderninhos encantam alguns espectadores, enquanto entediam outros. Questão de gosto. No fim das contas, parece se impor a sensação de vazio quando o filme chega ao fim, que é quando as contas são feitas. Parece muito barulho para nada, como na peça daquele velho e surpreendente dramaturgo.
Sobra a "Corra, Lola, Corra" essa agilidade jovem, a exuberância com que remoça um velho e eterno tema da inquietação humana. Além disso, põe certa leveza no ultimamente pesado cinema alemão. A pergunta que fica é se essa leveza é sustentável ou não.

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