'Corpos Secos', sobre mortos-vivos, tem clichês, mas cresce ao ambientá-los no Brasil
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terça-feira, 21 de abril de 2020
IVAN FINOTTI 
RIO DE JANEIRO, RJ - (FOLHAPRESS) A maior atração de "Corpos Secos", escrito a oito mãos por três gaúchos e um paulistano, é que se passa numa pandemia. Foi escrito antes do novo coronavírus chegar, e a editora Companhia das Letras, dona do selo Alfaguara, até discutiu internamente se seria de bom gosto lançar o livro neste
momento de quarentena.
Para quem acha que histórias de zumbis são nojentas, não há mesmo o que fazer. Já quem vê beleza em mortos-vivos mastigando humanos vai encontrar no livro uma boa diversão, com uma quantidade razoável de sexo e muito sangue e violência crua.
Quando a história começa, o vírus zumbi (palavra não usada no livro), que deixa os corpos secos, já se alastrou por todo o país. O primeiro personagem é a única esperança da humanidade brasileira - um rapaz que foi infectado, mas desenvolveu anticorpos e não virou morto-vivo.
A cada capítulo, um novo personagem narra a história. Eles estão inicialmente em diversas partes do Brasil, e rumam para Florianópolis, cidade ilha que está sendo controlada pelas Forças Armadas e, teoricamente, se mantém livre do vírus.
É a saga de quatro desses personagens, mais seus agregados, que vai conduzir o livro. Talvez devido à troca de autor a cada capítulo (o que parece ter sido o caso), algumas das histórias acabam sendo mais interessantes do que outras. Na jornada a Santa Catarina, eles enfrentarão um Brasil devastado. Aqui vale tudo, ou seja, todos os clichês dos filmes pós-apocalípticos.
Estão lá os supermercados saqueados, os caminhões virados nas ruas, a falta de gasolina, os bandos armados, a desconfiança agressiva com os desconhecidos, a pesquisa médica para a vacina, a empresa gananciosa responsável pelo vírus, as aglomerações de infectados vagando a esmo, o andar lento do zumbi até que ele se aproxima e dá um bote relâmpago, as cabeçadas nos vidros dos carros.
Mas o livro cresce quando traz essas batidas situações para a realidade brasileira. As descrições de São Paulo, da serra gaúcha, das praias da região Sul ou do aeroporto Santos Dumont, no Rio de Janeiro, aproximam o leitor, que está mais acostumado a ver mortos-vivos em Londres, Seul e no interior dos Estados Unidos.
A mais engenhosa dessas ideias, no entanto, é a passagem de alguns personagens pela Flip. O nome da festa literária de Paraty não é citado de forma explícita, mas os autores sentem um prazer óbvio ao narrar a transformação de colegas em zumbis comedores de carne. Vale dizer que os escritores desse livro são todos romancistas vencedores de prêmios literários.
Numa ótima passagem em Paraty, um personagem pergunta a outro se todos estão mesmo mortos na cidade. Resposta: "Acho que sim. Vi o Houellebecq numa janela, mas era difícil dizer, ele já tinha cara de morto antes disso tudo".
A ida de São Paulo para o Rio de Janeiro pela BR-101, aliás, talvez homenageie um outro livro com situação parecida de terra arrasada.
Certamente lembra "Blecaute", livro de Marcelo Rubens Paiva escrito em 1986, que, no entanto, parte de outro princípio - todo mundo morreu misteriosamente e só três pessoas sobreviveram.
E, se o final não chega a surpreender, deixa aquelas pontas soltas típicas de filmes de terror. Sim, dá vontade de ler uma continuação. O que mais se pode esperar de uma história de zumbis?
CORPOS SECOS
Preço: R$ 44,90 (192 págs.) e R$ 29,90 (ebook)
Autor: Luisa Geisler, Marcelo Ferroni, Natalia Borges Polesso e Samir Machado de Machado
Editora: Alfaguara
Avaliação: bom


