Corpos estranhos
PUBLICAÇÃO
sábado, 12 de fevereiro de 2011
Marcos Losnak <br> Especial para a Folha2 
Numa época em que a maioria dos romances retrata a facilidade do sexo, o escritor inglês Ian McEwan criou uma obra onde focaliza justamente o oposto, a dificuldade do sexo. ''Na Praia'', que acaba de ser relançado pela editora Companhia das Letras, passeia pelos corredores no início da vida sexual. Corredores assombrados constantemente por padrões morais e sociais.
A história narrada por Ian McEwan está fundamentada em três pontos: o sentimento amoroso, o ato sexual e os padrões sociais. A partir desses pontos mostra como padrões sociais são capazes de determinar tanto o ato sexual como o próprio sentimento amoroso. Sugere que, no olho do furacão dos hormônios, é praticamente impossível entender propriamente o sexo. E, acima de tudo, impossível compreender a dimensão do amor.
''Na Praia'' narra a lua de mel dos jovens Edward e Florence no início da década de 1960, uma época em que o sexo ainda era aceito apenas depois do casamento. Num clássico hotel litorâneo da Inglaterra, o casal começa a estabelecer os primeiros contatos físicos da paixão. Ambos representam os típicos jovens frutos da contenção sexual vitoriana, onde os padrões morais estavam acima de qualquer sentimento ou desejo.
De um lado, Edward está sedento em tocar o corpo da amada e penetrar em sua intimidade. De outro lado, Florence está suando frio de medo de ser tocada e ter sua intimidade invadida. A partir deste quadro, Ian McEwan descreve o que acontece na mente de cada um dos jovens. Uma chuva de dúvidas e incertezas cai sobre aquilo que deveria ser o paraíso do prazer. Uma tempestade onde nem mesmo o amor que os une é capaz de funcionar como abrigo.
Edward e Florence são figuras que, no momento mais aguardado da juventude, batem a cabeça no muro do despreparo, da insegurança e do desconhecido. Representam o casal num momento histórico de transição moral e de costumes. Não pertencem mais ao puritanismo da primeira metade do século 20, mas também não pertencem à cultura da liberdade da segunda metade do século. São reféns de um momento de transição onde o amor começa a se manifestar em múltiplas formas.
Mais do que a história de uma lua de mel não consumada, ''Na Praia'' é o desenho de um amor abortado pela imaturidade. A trajetória de um casal onde o homem ofende a mulher que ama e a mulher ofende o homem que adora. Uma discussão onde cada um dos lados apresenta sua visão dos sentimentos, e mesmo assim não conseguem adentrar no universo um do outro. A velha destruição amorosa onde amor se transforma, de maneira rápida e inesperada, em rancor.
Nascido em 1958, Ian McEwan é um dos autores mais cultuados hoje na Inglaterra. Em cada uma de suas obras insere um diferencial no tratamento de temas contemporâneos. Com nove romances publicados no Brasil, ''Na Praia'' está distante de ser a obra mais representativa do escritor. Romances como ''Reparação'' (Cia. das Letras, 2002), ''Sábado'' (Cia. das Letras, 2005) e ''O Inocente'' (Cia. das Letras, 2003) percorrem caminhos mais interessantes e ultrapassam a idéia de temática bem resolvida. Além de climas mais completos, oferecem desdobramentos mais abrangentes na narrativa.
Nas últimas páginas de ''Na Praia'', Ian McEwan insere novas perspectivas temporais. Apresenta o personagem Edward nos dias atuais, distante 40 anos do drama de sua lua de mel. Oferece apenas as consequências de um dos lados, o masculino. O leitor não tem acesso ao destino do lado feminino. Coloca todo o peso do tempo nos braços de Edward, um peso que termina sumariamente em solidão e melancolia. Tudo dentro de um contexto onde o lado masculino seria o responsável pelo ritmo mais lento do funcionamento das engrenagens do amor.
Serviço:
Na Praia
Autor - Ian McEwan
Editora - Companhia das Letras
Tradução - Bernardo Carvalho
Páginas - 132
Quanto - R$ 38,00
Ela pôs o braço em torno dos ombros dele. ''Quer saber um segredo?''
''Sim.''
Ela pegou o lobo da orelha dele entre o indicador e o polegar, puxou gentilmente sua cabeça na direção dela e sussurrou: ''Na verdade, estou com um pouco de medo''.
Não era exatamente a verdade, mas, previdente como ela era, nunca teria podido descrever a sucessão de seus sentimentos: uma sensação física e seca de aperto e encolhimento, uma repugnância generalizada pelo que talvez fosse solicitada a fazer, vergonha diante da perspectiva de decepcioná-lo e de se revelar uma fraude. Tinha aversão a si mesma e, ao sussurrar no ouvido dele, sentiu as palavras sibilarem em sua boca como as de um vilão no teatro. Mas era melhor falar do medo do que admitir a repulsa e a vergonha. Tinha de fazer todo o possível para baixar as expectativas dele.
(Fragmento de ''Na Praia'' de Ian McEwan)


