O que esperar de uma mistura de dança contemporânea com a cultura hip hop? Para a Cia. Corpos Nômades, de São Paulo, o resultado é uma experiência corporal que visa a retratar a vivência atual do homem e no que ela pode alimentar o olhar, a percepção, a reflexão e enriquecer o conhecimento e a própria dança. A pesquisa será mostrada de hoje a domingo na Mostra Contemporânea do 10º Festival de Teatro de Curitiba. A companhia, dirigida pelo coreógrafo João Andreazzi, leva ao PolloShop Estação o espetáculo ‘‘Ooze/Ezoo (Es-co-ar)’’.
Inspirada no texto ‘‘Pioravante Marche’’, de Samuel Beckett, a montagem utiliza elementos típicos da cultura hip hop para contextualizar situações. Andreazzi detalha que o espetáculo reúne dança contemporânea, vídeo, os quatro elementos do hip hop (break, rap, grafite e MC/mestre de cerimônia), além de profissionais como os rappers Nina Braum e Samuel Hoit, o videomaker Antonio Marcos, Slick DJ, os bailarinos João Andreazzi e Pei-Wang (de Taiwan), o precursor da dança de rua no Brasil, Nelson Triunfo, entre outros.
Nos últimos anos, dançarinos de rua afinados com o hip hop começaram a influenciar coreógrafos contemporâneos. João Andreazzi vem pesquisando fusões com o hip hop no ‘‘Corpos Nômades’’, projeto que deu nome à companhia. ‘‘Ooze/Ezoo’’ é o resultado desse projeto investigativo iniciado em Amsterdã (Holanda) – onde Andreazzi morou três anos – e realizado entre 1999 e 2000 na Secretaria de Estado da Cultura de São Paulo. Para o coreógrafo, os b.boys possuem os atributos dos artistas contemporâneos e, além de representar a realidade urbana, são despojados, viscerais e intuitivos.
O diretor conta que uma das características da Cia. Corpos Nômades é exatamente convidar corpos de culturas distintas para atuar, sem desprezar a própria cultura que constroem no corpo. ‘‘No espetáculo, chega-se ao momento do racha entre DJ e vídeo, grafiteiro e vídeo, b.boy e dança contemporânea, mas ninguém perde sua característica’’.
‘‘Ooze/Ezoo’’ trabalha com referências surgidas no trânsito entre a realidade e a virtualidade, entre o estável e o não estável. ‘‘São as mudanças que o corpo realiza com o meio que o envolve, um interferindo no outro’’. No texto de Samuel Beckett, explica Andreazzi, o significado da palavra Ooze é ‘‘escoar’’, enquanto Ezoo, ‘‘voltar’’. ‘‘Indo e vindo, tanto nos aspectos coreográficos como no vídeo’’, resume.
Nesta montagem, a busca é por deixar fluir os sentidos do corpo e deslocar os enfoques do movimento no espaço cênico. O vídeo ajuda a revelar o corpo e ampliar a noção espaço/tempo. ‘‘Trabalhamos projeções do corpo em vários ângulos e formas. É um leque aberto e extenso’’, diz. O aspecto corporal do espetáculo é complementado com o poema de Beckett em ritmo de rap.
Andreazzi, que já foi premiado pela APCA (Associação Paulista de Críticos de Arte) como coreógrafo pesquisador pelo solo ‘Aos Olhos de Alguém’, lembra que ‘‘Ooze/Ezoo’’ estreou em novembro de 2000 no Porto de Santos, passando depois por diversos locais. ‘‘Esta é outra característica do espetáculo’’, pontua o diretor. ‘‘Ele vai se transformando de acordo com cada espaço em que é apresentado. Cada lugar faz com que nossos corpos se modifiquem e se adaptem. É o que acontecerá aqui em Curitiba’’, conclui.
• ‘‘Ooze/Ezoo (Es-co-ar)’’, espetáculo da Cia. Corpos Nômades, de São Paulo. Hoje, às 21h30, no Polloshop Estação, com reapresentação amanhã e domingo, às 20 horas. Texto: Samuel Beckett. Concepção geral, direção e cenografia: João Andreazzi. Elenco: Pei-Wang, João Andreazzi, Slick Dj, Nelson Triunfo e outros. Iluminação: Décio Filho. Duração: 55 minutos.

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