Corpo frágil, espírito forte
Velho professor atravessou a ponte entra a vida e a morte narrando a travessia até para a tevê
ReproduçãoO escritor Mitch Albom entrevista o professor Morrie Schwartz: últimos dias são uma lição de vidaA Última Grande Lição, de Mitch Albom, é um livro no qual o leitor sabe o desfecho antes de começar a leitura. O personagem principal morre no último capítulo. Morrie Schwartz, professor universitário, lecionava Psicologia Social, e conseguiu estender os 78 anos em que viveu até o último movimento possível. Único personagem, ele cativa o leitor, que fica protelando o término do livro, como se pudesse, de alguma forma, trapacear a morte.
Morrie sofria de esclerose lateral amiotrópica (ELA), enfermidade que ataca o sistema nervoso. A doença é implacável e começa a paralisar as pernas e vai subindo, a pessoa perde os comandos dos músculos do tronco e não consegue ficar ereta. No fim, a pessoa continua viva, respira por um tubo introduzido por um orifício aberto na garganta, e a alma, perfeitamente alerta. A pessoa fica congelada no próprio corpo. A doença vai avançando lentamente, degenerando o físico.
No caso de Morrie, enquanto o corpo foi ficando mais frágil, o espírito mais fortalecido. A pessoa descarta toda essa tralha e se concentra no que é essencial, comentara numa terça-feira. Morrie sempre foi desapegado às coisas materiais. Após a sentença de morte, isso apenas potencializou esse desapego. Viver, para ele, ultrapassou todo entendimento. O que realmente traz satisfação é oferecer algo que se tem.
Morrie foi se transformando após o diagnóstico. Antes, era baixinho e caminhava a passos curtos, tinha olhos azuis-verdes brilhantes, cabelo prateado, orelhas grandes, nariz triangular e espessas sobrancelhas acinzentadas. Apesar dos dentes superiores tortos e dos inferiores inclinados para dentro, o sorriso era sua melhor característica.
Ele virou celebridade na tevê no programa Nightline, de Ted Koppel. Para mim, Ted, viver significa poder ser responsável pelo outro, disse diante das câmeras. Morrie definhava diante de um público nacional de tevê, numa verdadeira minissérie sobre a morte.
Foi depois de aparecer na mídia televisiva que Mitch Albom procurou o professor e fez de seu gravador um repositório de recordações, como se pudesse furtar alguma coisa da bagagem da morte. Eles se reencontraram 20 anos depois da formatura. A Última Grande Lição poderia ser uma fórmula para um grande clichê: um mestre, pressionado pela sombra da morte, passa a seu ex-aluno lições de vida.
Mas não é um clichê. Nem ao menos o autor se valeu de uma linguagem inovadora para contar a história. Também não é um autêntico livro de auto-ajuda, uma verdadeira adoração dos americanos, que vivem num bazar persa de informações do gênero. Com imensa sensibilidade, Albom construiu um relato comovente, sem transformar o mestre num herói. Agora que estou morrendo, estou mais interessante para os outros, brincava Morrie.
Aos ouvidos dos brasileiros, Morrie se torna um jogo sonoro intrigante com a palavra morre. Cada vez que pronunciamos o nome Morrie, estamos falando também morre, num eco sinistro. O velho professor atravessou a ponte entre a vida e a morte, narrando a travessia. As relações afetuosas me sustentam, costumava repetir. A rendição de Morrie à doença foi no momento em que precisou de outra pessoa para limpar a bunda. Quando enfrentou pela primeira vez essa situação, afirmou: Todos sabemos ser criança. Está dentro de nós. Para mim, é só lembrar como era agradável.
Para explicar o sucesso do livro nos Estados Unidos é preciso analisar o contexto em que a história de Morrie surgiu no cenário americano. A mídia estava a serviço do julgamento de O. J. Simpson, numa degradante montagem, que resultou na absolvição do acusado. A história do professor que resolveu não se curvar diante da uma doença degenerativa, surgiu para aliviar o lado podre da sociedade que absorvia naquele momento a atenção dos americanos.
E a morte precisava entrar no twister da indústria cultural. Depois de assistirem aos programas televisivos, comprarem o livro, os americanos em breve poderão assistir ao filme, ouvir o CD, usar camisetas....num verdadeiro consumismo em cima da morte.(F.F.)
A Última Grande Lição, de Mitch Albom, tradução de José J. Veiga, Editora Sextante, Preço: 18,00





