Corpo erótico, corpo restaurado
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 18 de julho de 1997
Carlos Eduardo Lourenço Jorge Especial para a Folha2 
ReproduçãoCena de Kama Sutra, uma fábula eróticaDe volta à Índia natal depois de uma temporada nos Estados Unidos, onde realizou a tórrida love story inter-racial Mississipi Masala e a comédia dramática The Perez Family, a diretora Mira Nair, 40 anos, traz agora ao Ocidente o drama erótico Kama-Sutra (veja a programação de cinema na página 5) . O filme tira o título do famoso guia hindu da arte do amor, mas a diretora descreve sua fábula erótica como uma abordagem não acrobática do texto original. A narrativa de Kama-Sutra está localizada na Índia do século 16, período em que surgiram ritos e crenças vivos ainda hoje. O argumento gira em torno da relação entre a rainha Tara e a cortesã Maya. As heroínas do filme são amigas desde pequenas, mas estiveram muito tempo separadas por causa de suas origens sociais. O rei Raj Singh contrata um escultor para decorar seu templo, e acaba perdido de amor pela modelo do artista, por coincidência a amiga da rainha, Maya.
Nenhuma acrobacia ou contorsionismo mais audacioso, talvez. Mas pode-se esperar certa ênfase carnal e sem duvida sensíveis amostras de sexualidade feminina. Sarita Choudhury, cativante em Mississipi Masala, é a rainha Tara. A estreante Indira Varma aparece como Maya. A equipe técnica de primeiro escalão é norte-americana.
Corpo restaurado Poucos filmes receberam tanto carinho durante o processo de restauração como Um Corpo que Cai/Vertigo (veja a programação de cinema na página 5) . De fato, a versão remodelada em 96 do clássico que Alfred Hitchcock dirigiu em 58 consumiu dois anos de trabalho insano dos peritos Jim Katz e Robert Harris (os reconstrutores de Lawrence da Arábia e My Fair Lady) e custou mais de 1 milhão de dólares. A preocupação maior foi restaurar as cores originais e reconstituir o primeiro negativo em VistaVision - procedimento técnico criado pela Paramount em 1954, em que o fotograma resulta duas vezes maior do que o normal e de extrema nitidez, eliminando-se qualquer granulosidade da película. (Do negativo VistaVision também se obtém cópias comprimidas para o cinemascope ou cópias com duplo fotograma, o VistaVision integral para tela grande ou os 70 milímetros em que foi projetada nos Estados Unidos esta restauração de Um Corpo que Cai.)
E a obsessão da dupla pelo detalhe foi autenticamente hitchcockiana. Harris e Katz até mesmo pediram e obtiveram da montadora inglesa Jaguar o tom exato da pintura dos modelos 56 e 57 para chegar à cor precisa do carro usado por Kim Novak no filme. Não era para menos: Vertigo, sob todos os aspectos, é a mais pessoal, discutida e duradoura obra do mestre. Um filme para rever a qualquer tempo, e agora mais do que nunca, com o irresistível apelo do novo em folha. Ou quase: James Stewart já não há mais.


