O preparador físico Nuno Cobra atua na profissão há 46 anos e pelo menos nos últimos 40 anos vem trabalhando no método que criou, de unir emocional e físico num mesmo plano. De nada vale músculos saltando num corpo turbinado se a alma que o habita é infeliz. O livro ‘‘A Semente da Vitória’’, que lançou há dois meses pela Editora Senac/SP, onde aborda tópicos de sua visão muito particular sobre saúde, está na sétima edição.
Na semana passada Cobra participou de uma sessão de autógrafos na megastore das Livrarias Curitiba, no Shopping Curitiba, e proferiu palestra no Teatro Fernanda Montenegro, sob o tema ‘‘Saúde: Equilíbrio Entre Corpo e Mente’’. Sucesso editorial e de mídia, o preparador físico tem seu nome associado ao de Ayrton Senna, a quem deu assistência por mais de dez anos.
Trabalhou também, entre outros famosos, com Cássio Motta, Abílio Diniz, Mika Hakkinen, Sergio Machline, Gil de Ferran, André Lara Rezende. Disputado pela mídia ele sabe que é o xodó do momento. Esta situação seria um prato cheio para um exibicionista, mas o preparador físico de 62 anos, nascido em São José do Rio Pardo, interior de São Paulo, se confessa ‘‘extremamente introspectivo, tímido’’.
Pelas suas afirmações, Nuno Cobra poderia ser um ‘‘preparador de almas’’. Sua tese parte do princípio de que ‘‘a natureza do homem é a perfeição’’, mas a sociedade desvirtua esse caminho inicial para moldá-lo às suas leis. Com isso tolhe o poder de cada um, seja através dos pais, da religião, dos professores, ou, como é mais comum, num coquetel de tudo isso misturado.
Quando algum de seus clientes comenta que se transformou numa nova pessoa, Cobra chama-lhe a atenção: ‘‘Você não está diferente. Agora você está a pessoa que nasceu para ser’’. Essa mudança requer horas de sono, alimentação correta, atividade física sistemática, sem a ‘‘malhação infernal’’. O equilíbrio é a chave para uma saúde plena. ‘‘Essa saúde plena é o indivíduo encantado com a vida, com alta energia. A pessoa triste não é saudável’’, apregoa.
Em seu livro o senhor defende a harmonia entre corpo e alma. O homem está dissociado de si mesmo?
A pessoa nasce com todas as possibilidades. A criança é o símbolo da vida, da felicidade, da saúde, da alegria. Ocorre que as pessoas tiram o curso natural da vida dos indivíduos. São as castrações vindas dos pais, da escola, da Igreja. Essa série de anulações faz de você uma pessoa ajustada a uma determinada sociedade, para tratar bem outras pessoas e tratar mal você. A natureza do homem é a perfeição. Acontece que a sociedade tinha que inventar outras formas de civilizar as pessoas, para que pudesse usar esse verbo tão em uso que é a educação. Educar significa ‘‘tirar de dentro’’ e nós temos uma educação que é ‘‘pôr para dentro’’. Então se põe muita coisa dentro, com muitas informações. Isso não é o saber; é conhecimento, que não tem nada a ver com viver bem, ser feliz, ser útil a si e ao próximo. Porque você só pode dar, a partir do momento em que você recebe, ou seja, que você se dá. Como é que você pode amar as pessoas, como querem as religiões, se não se ama a si próprio? Isso é uma teoria sem nexo.
E esse culto ao físico, ao corpo...
Não é o culto ao corpo, é o contrário. O corpo é apenas um caminho, através do qual você vai explorar seu corpo espiritual, emocional, mental. Então não vejo o físico como um objetivo. Esse culto ao corpo é um erro muito grande; o culturismo não é correto. É muita malhação com o corpo, que é o seu maior patrimônio. Quando você muda esse corpo, muda sua cabeça, sua emoção, seu espírito.
Devido a um descontrole emocional é que se chegou a esse modismo?
É, por falta de estrutura emocional. As pessoas não têm equilíbrio – descobriram o corpo e foram como doidas às drogas, aos anabolizantes para ter um corpo extremamente desenvolvido. Ela fica amarrada, presa. A gente quer fazer dele um elemento agregado ao seu espírito, à sua mente, à sua emoção.
Seu livro consegue penetrar no território das pessoas anabolizadas?
Quem ler o livro vai refletir muito. Em São Paulo já houve modificação acentuada nas academias depois do lançamento dele. Trabalho há 46 anos, e há uns 40 anos estou com esse método. Sempre achei que as pessoas não estavam preparadas, porque eu era muito ridicularizado nos anos 60, 70 quando falava da intelectualidade emocional, da necessidade de atingir o espírito pelo corpo. Então achei que agora, em 2001, as pessoas estavam prontas para receber isso, mas ainda foi um choque, principalmente no meio da fisicultura, da educação física. Mas as academias começaram a se reunir, a estabelecer que, realmente, abdominal não tira barriga e exercício localizado não vai tirar gordura do lugar onde está a gordura.
‘‘A Semente da Vitória’’ enfoca unicamente esse universo?
A finalidade do livro vai além. Ou seja, mexer com a cultura do povo, para que perceba a importância de se conhecer e se desenvolver. Estabelecer com ele uma verdade que dia a mais, dia a menos começará a perceber. Temos um Ministério da Educação que é da instrução pública, no máximo. O Ministério da Saúde é, no máximo, ministério da doença. Porque não vejo nenhum projeto de saúde. Ele está fazendo um trabalho maravilhoso com medicamentos, mas medicamento é doença. Tem que se criar os profissionais de saúde.
O mundo está doente?
O mundo está doente. Por quê? Porque se preocupou em fazer profissionais e não existe profissional de saúde. Ainda vai aparecer isso que estou desenhando: uma medicina e uma educação física completamente revigoradas, com uma outra postura. Para que você vai ficar doente? Não precisa ficar doente, a doença não existe. No entanto chegamos a um ponto em que o homem moderno tem que tomar remédio para dormir. Nossa alimentação é péssima. O americano está aí, com mais de 50% de obesos. É uma sociedade em decadência total. Não sou maluco por físico, mas é que estamos instalados num corpo, passamos a vida dentro dele.
O comportamento americano é seguido pelo brasileiro. A saúde passa pela cultura?
Exatamente. O problema é que nossa cultura é ambulante, ela impede as pessoas de se estabelecerem verdadeiramente diante da vida. Faço um apelo pelo seu jornal para que as pessoas parem, pensem, percebam que ela não existe. Existe uma coisa produzida, mas que não se estabeleceu como verdadeira. As pessoas têm que se perceber como corpo, têm que se proteger dormindo, se alimentar de coisas nutrientes, não de Mc Donald’s, de porcaria.
Especialmente num País como o nosso, de tanta miséria, como se pode trabalhar essa qualidade da alimentação?
Por incrível que pareça as coisas boas são baratas. É claro que temos uma população que não podia existir, mas que ainda faz parte da nossa cultura aleijada. A questão é a educação e quando falo isso não é pôr o cara na escola, mas ensiná-lo a viver, fazer com que aproveite a natureza. Ela é pródiga. Você põe na terra e ela dá uma tangerina, uma melancia, uma batata. É uma mágica.
O sr. sempre trabalhou com esse método?
Esse método nasceu comigo, na minha transformação. Eu vi que ninguém transforma ninguém, é necessário a pessoa se conscientizar para promover o seu autoconhecimento. As pessoas não se encontram – quando chegam em casa ligam a televisão, telefonam, parece que estão com medo de se encontrar consigo mesmas. Neste processo não há necessidade de força de vontade; a pessoa tem que ser despertada. Há que se tocar em coisas simples que o pobre também pode fazer. Veja, o meu trabalho não tem academia, você não precisa gastar dinheiro nenhum. É só teu pé. É caminhar numa praça, voltar, abraçar uma árvore, sentir o cheiro do mato, do capim.
O Brasil, especificamente, como se comporta nestes novos tempos?
Acho que o Brasil está acima de outros países. Pena que o brasileiro é muito dependente do Estado, com essa política paternalista. Na hora em que tomar consciência da força que tem como cidadão, o País vai explodir. O brasileiro é um povo especial, extremamente inteligente, criativo. Falta a ele esquecer o paternalismo.
Quando o sr. diz que estamos à frente de outros países, inclui os Estados Unidos?
O Brasil está na frente dos Estados Unidos, que aliás é o país mais atrasado do mundo. Eles estão na frente tecnologicamente, mas culturalmente são muito atrasados. Nos termos de se cuidar da saúde dentro de uma escala de zero a dez, o brasileiro chega a sete. O americano chega a dois. É um povo com muito tabu, preconceitos, estigmatizado por uma religião predatória.

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