Corpo, depositário da memória
PUBLICAÇÃO
domingo, 04 de outubro de 1998
Érika Pelegrino 
O impacto da revolução tecnológica no corpo humano tem sido objeto de estudo do artista plástico Glauco Frizzera. Uma instalação com dentes humanos e fios de cobre, realizada ano passado na Sala Celso Garcia Cid, no Cine-Teatro Ouro Verde, em Londrina, marcou o início de estudos do artista sobre o assunto.
A idéia ainda não estava lapidada, como na instalação que ele realiza até dia 18 de outubro no mesmo espaço. O artista já trabalhava o tema, mas agora afirma ter alcançado um ponto-chave: a memória como ponto principal do impacto da revolução tecnológica no corpo humano. Isto não é uma novidade, na verdade vem acompanhando a história da evolução do ser humano, afirma Glauco Frizzera.
O artista cita a passagem da cultura baseada na oralidade, para a baseada na escrita. Neste momento acontece uma grande revolução técnica de arquivamento e extensão da memória, afirma. Outro ponto da história da evolução do ser humano que ilustra o impacto da revolução tecnológica no corpo humano, destacado por Glauco Frizzera é quando o homem deixa de ser nômade e se fixa em um local. Esta mudança não traz apenas alterações sociais e culturais, mas também na estrutura humana, afirma.
Uma hipótese para transportar esta idéia para a revolução tecnológica hoje, segundo o artista, é o estilo de vida de uma criança. Ela vai para a escola, normalmente um prédio sem espaço para correr, volta para casa, um condomínio fechado de onde não pode sair por causa da violência, e se senta em frente a um computador, onde fica por horas.
Estes hábitos estão alterando a estrutura física desta criança, está sendo criado um outro ser, um mutante, afirma. A idéia do corpo humano como depositário da memória é trabalhada na instalação de Glauco Frizzera através de 12 desenhos feitos com grafite na parede e vidros com partes do corpo do próprio artista - unha, calos, pus, cabelo.
Platão, Aristóteles, pensadores contemporâneos como Pierre Levi e Paul Virilho foram objetos de estudo do artista, no processo de lapidação de suas idéias sobre o tema. O termo grego farmaco, que significa droga, encontrado em um discurso de Platão, define a espinha deste trabalho de Glauco Frizzera. Existe uma ambivalência neste termo, que pode significar tanto a droga que salva quanto a droga que mata, esclarece o artista.
Quando se fala em revolução tecnológica nos dias atuais, esta ambivalência pode ser encontrada nas divergências de idéias, segundo Glauco Frizzera, entre Paul Virilho e Pierre Levi. A grosso modo, o primeiro é pessimista e vê na revolução tecnológica uma catástrofe. Já Pierre Levi pontua as maravilhas possibilitadas pela informática.
Glauco Frizzera entrou em contato com a arte através da fotografia. Sentiu-se limitado com esta linguagem e passou a buscar novas possibilidades. A primeira experiência foi realizada com velas e fotografias. Não gostei do resultado, mas gostei da concepção de usar o espaço físico como suporte, explica.
Seguindo esta linha, o artista opta pela parede como suporte de seus desenhos nesta instalação, e não por tela, por exemplo. O meu trabalho não tem o objetivo de se perpetuar, explica. Ele é virtual, eventualmente surge em algum lugar.
Natural de Vitória, Espírito Santo, onde mora atualmente, Glauco Frizzera é formado em Artes Plásticas pela Universidade Federal do Espírito Santo. Já participou de coletivas em Santos, São Paulo, Rio de Janeiro, Vitória e Vila Velha e de individuais nestas mesmas cidades, com exceção de Santos. Em Londrina - onde também fez especialização em Marketing e Propaganda na Unopar - ele também já fez exposições individuais.
Instalação de Glauco Frizzera - até 18 de outubro, na Sala Celso Garcia Cid, no Cine-Teatro Ouro Verde, Rua Maranhão, 86, em Londrina.


