CORPO DE SCLIAR FOI CREMADO ONTEM NO RIO
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segunda-feira, 30 de abril de 2001
Agência Estado 
O corpo do pintor gaúcho Carlos Scliar foi cremado ontem, às 9 horas, no crematório do cemitério São Francisco Xavier, no Caju, no Rio de Janeiro. Meia hora antes, aconteceu um velório reunindo parentes e amigos do pintor que morreu às 5 horas do sábado, aos 80 anos, no Hospital Adventista Silvestre, com um quadro de falência múltipla dos órgãos em decorrência de hepatite, diabetes e hipertensão. Scliar estava internado desde o dia 15 de abril no Hospital Silvestre, no bairro de Santa Teresa.
Em respeito ao próprio pedido do pintor, as cinzas foram lançadas nas praias de Cabo Frio, onde Scliar mantinha seu ateliê desde a década de 60. Sua casa naquela cidade, que pertenceu antes ao pai de Santos Dumont, e outro ateliê em Ouro Preto, uma edificação do século 18 restaurada, serão transformados em institutos culturais para abrigar as 300 obras que o pintor colecionava, suas e de amigos.
Figura central da história da arte moderna brasileira, Scliar exibia uma formação que combinava elementos clássicos do modernismo, como o cubismo, lições importantes provenientes de sua experiência como artista gráfico é dele o projeto da revista Senhor, um dos mais bem-sucedidos da história da imprensa brasileira , com um perpétuo e inesgotável interesse pelo que o cercava. Acho que eu represento o mundo que eu vivo, afirmou, em recente entrevista ao jornal O Estado de S.Paulo, antes da abertura da exposição de obras recentes, na Pinacoteca.
A afirmação não soou gratuita, como provam os desenhos que fez na Itália durante a 2ª Guerra Mundial, onde serviu na Força Expedicionária Brasileira, ou seu trabalho à frente do Clube da Gravura de Porto Alegre. Ou ainda as obras de juventude, em que sofreu influência decisiva do realismo social de Portinari e Segall, mas é a partir de uma ótica construtiva rigorosa, de uma necessidade de desconstruir o espaço em elementos geométricos, que ele constrói suas paisagens e naturezas-mortas.
Também se destacam as serigrafias que Scliar fez no ano passado para o álbum sobre os 500 anos do Brasil: é o momento em que se revela crítico, fazendo comentários sobre diferentes épocas da história, com a chacina em Vigário Geral. Sua obra sempre foi marcada por um rigor formal, por uma inquietação de gestos e, sobretudo, por uma redução de meios de expressão, comentou, no final do ano passado, Emanoel Araujo, diretor da Pinacoteca, por ocasião da abertura da exposição de Maria Helena Vieira da Silva e Arpad Szenes, artistas que influenciaram e praticamente adotaram a obra de Carlos Scliar - em obras como Mercado de Dakar, um guache pintado por ele em 1947 na viagem à França, acompanhando Maria Helena, nota-se o desejo de Scliar de pintar à maneira dela. O desenho exibe também o mesmo traço ligeiro e preciso de Szenes.
Apesar das diversas influências, o pintor gostava de afirmar que o cubismo foi o movimento que mais mexeu com seu estilo. Um quadro nada mais é do que uma composição geométrica, cheia de problemas, explicava. Normalmente, começo o quadro sabendo o que quero, mas ele termina completamente diferente.
Era notória também a influência de seu trabalho como designer. Usando elementos repletos de símbolos e sinais gráficos, como partituras musicais e caligrafias caprichadas, ele intensificava a carga dramática do trabalho, quase não deixando ao olhar um único campo em que possa repousar por alguns instantes. Scliar, aliás, não negava as diversas marcas que recebeu em sua obra, visitando até os artistas que mais admirava, como fez com Morandi, quando esteve na Itália. Quero mostrar que, aos 80 anos, estou renovando a pintura; em qualquer idade você é outro, enriquecido, gostava de afirmar, lembrando que buscava a síntese não pela limpeza, pela depuração dos vários elementos plásticos, mas pelo excesso. O resultado não era uma obra desigual, mas audaciosa, marcada pela liberdade em lidar com as cores.


