Xeque-mate! Para aqueles que acham que jogar xadrez é só coisa de ''gente grande'' por ser um jogo muito complexo, a experiência que a Escola Municipal Corveta Camaquã, no Jardim Lidóia, vem fazendo com os alunos da primeira série do Ensino Fundamental está conseguindo mudar este conceito. Há dois meses praticando o jogo que estimula o raciocínio lógico-matemático, a iniciativa está deixando os alunos mais concentrados, atentos e também tolerantes ao aprender as regras do jogo e lidar com a derrota. Na semana passada, os alunos fizeram uma demonstração aos pais das suas habilidades estrategistas. Um
tabuleiro gigante foi montado na quadra da escola onde os alunos eram as peças. De cada lado do tabulueiro ficavam dois alunos ''capitães'' com a responsabilidade de armar as jogadas. No final, após o empate dos jogos, os alunos também puderam pôr em prática os conhecimentos adquiridos jogando xadrez com os seus pais.
A idéia de levar o jogo de xadrez para a sala de aula surgiu após um ciclo de palestras sobre a interdisciplinaridade organizado pelos professores da área de Pedagogia Lúcia Amaral e Jorge Benjamín Martínez Fernández, da Universidade Estadual de Londria (UEL) e Universidade Estadual de Maringá (UEM), respectivamente. Além da Escola Camaquã, as escolas municipais Santos Dumont e Melvin Jones também elaboraram projetos que envolvessem uma abordagem interdisciplinar.
No caso da escola Camaquã, o fato da professora Lucimeire Scudeler há oito anos ter aprendido jogar xadrez foi fundamental para ela desenvolver uma metodologia própria para ensinar o jogo que foi inventado na Índia, desenvolveu-se na China - conhecido como o ''jogo do elefante'' -, chegou até a Itália e acabou vindo para o Brasil, com D. Pedro I. Para desenvolver o projeto, contou com a participação da professora Olesia de Lima, de quem acabou partindo a idéia de montar o tabuleiro gigante. Trabalhando com o xadrez, puderam trabalhar as disciplinas de português (leitura e interpretação das regras, história do jogo e produção de livro de regras); matemática (sequência, legendas, cálculo mental); geografia (mapas, localização dos lugares onde o jogo começou, lateralidade, noção espacial); história (de como o jogo chegou ao Brasil e quem o trouxe, quais meios de transporte foram utilizados para este fim); arte (pintura, recorte e colagem das peças de xadrez, dramatização).
Para ensinar a complexidade do jogo, uma série de procedimentos ''pré enxadrísticos'' foram aplicados para o entendimento do jogo pelas crianças. As funções de cada peça foram explicadas separadamente, além de suas movimentações. No caso da ''torre'', por exemplo, em que para executar a peça é preciso ter conhecimento dos termos horizontal e vertical, foi proposto que os alunos executassem seriação e sequência onde as crianças ficavam deitadas na horizontal e outras em pé na vertical, e os demais alunos verbalizavam o segredo da sequência em si.
''Os alunos ficaram tão empolgados que pediram para os pais comprarem tabuleiros. Outro dado interessante é que as crianças com dificuldade de aprendizagem melhoraram muito e são ótimas jogadoras de xadrez. Na parte cognitiva, todos estão adquirindo mais atenção, concentração, raciocíno e criatividade'', comentou a professora Lucimeire.
A supervisora educacional Laudelina Leocádio Da Vanço também disse que se surpreendeu com o resultado da atividade. ''Até o recreio ficou diferente depois que eles passaram a jogar xadrez. Na sala de aula, os alunos estão muito mais concentrados e acho que isso de deve à disciplina que o jogo exige. Há também mais respeito mútuo, porque para ser um bom jogador é preciso aprender a ganhar e perder'', ressaltou.
''A escola está de parabéns. Com essa abordagem, os conteúdos programados não são modificados, o que muda é a postura do professor, que vai além do muro da escola, envolvendo a comunidade, deixando um pouco de lado o seu trabalho convencional de professor, que é solitário'', abordou a pedagoga Lúcia.
Beatriz Vendrame Salviato, 6 anos, que foi a ''dama'' no tabuleiro gigante, contou que no começo achou um ''pouquinho difícil'' aprender a jogar xadrez, mas que agora está até ensinando o pai a jogar. ''Ela está mais organizada e com a percepção das coisas mais apurada'', afirmou o gerente financeiro Claudemir Salviato. Outro pai que estava orgulhoso do desempenho do filho era o empresário Luciano Michel Weber, pai do aluno Luciano Michel Weber Filho, de 8 anos. ''Eu fiquei emocionado em ver o seu desempenho ao fazer as estratégias de jogo com tanta atenção e prazer. Ele está aprendendo muito'', destacou Weber. A farmacêutica bioquímica Erica Takeda Fernandes da Silva, mãe do Michel Takeda, 7 anos, elogiou a iniciativa da escola e comentou que, embora soubesse jogar xadrez, nunca teve paciência para ensinar os filhos. ''A metodologia que a escola criou é ótima e o meu filho está jogando tão bem que agora tenho que jogar com ele para que saiba que ainda tem muito o que aprender.''
Para o ano que vem, o projeto deverá ter continuidade, mas agora integrado às aulas de Educação Física. A escola pretende convidar Walter Pohl, 71 anos, que é avô da aluna Amanda Pohl Mazzercco, 7 anos, para participar do projeto. Campeão londrinense de xadrez em 1963, Polh ainda integra o Clube Londrinense de Xadrez. ''O xadrez é uma ferramenta social incrível, que aborda questões de sociologia, cidadania, respeito. Em alguns países é matéria obrigatória e será um prazer contribuir'', garantiu.

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