A Covid-19 tirou de cena um dos maiores letristas do país. Autor de canções que ficaram marcadas na memória afetiva dos brasileiros, Aldir Blanc morreu na madrugada de segunda-feira (4) aos 73 anos, após passar 24 dias internados na UTI (Unidade de Terapia Intensiva) do Hospital Universitário Pedro Ernesto, localizado na zona norte do Rio de Janeiro.

O carioca ficou popularmente conhecido por sua célebre parceria com o cantor e compositor João Bosco, com que compôs vários sucessos, incluindo “O bêbado e a equilibrista” - que se tornou um hino contra a ditadura militar na voz de Elis Regina. Também foi autor de crônicas e assinou a letra de trilhas que se tornaram hits televisivos, como “Resposta ao Tempo”, que Nana Caymmi interpretou na abertura da série Hilda Furacão e “Coração do Agreste”, tema da novela Tieta cantado por Fafá de Belém.

Aldir foi internado no dia 10 de abril em estado grave no Centro de Emergência Regional do Leblon, na Zona Sul do Rio com infecção urinária e pneumonia, exames realizados após a internação confirmaram a contaminação pelo novo coronavírus. Quatro dias depois, o artista foi transferido para uma UTI do Hospital Universitário Pedro Ernesto, que integra a rede pública de saúde da capital fluminense, onde acabou falecendo após permanecer entubado por 24 dias.

Nascido em 1946, Aldir ingressou na Faculdade de Medicina aos 20 anos e especializou-se em psiquiatria. Aos 18 anos, começou a tocar bateria e pouco tempo depois fundou o conjunto Rio Bossa Trio. Mais tarde, o grupo passou a se chamar GB 4, devido ao ingresso de outro componente, Sílvio da Silva Júnior, com quem viria a compor várias canções. Dentre elas, seu primeiro sucesso: “Amigo é pra essas coisas", interpretado pelo grupo MPB-4 e classificada no III Festival Universitário de Música Popular Brasileira, em 1970.

No início da década de 1970, inaugurou sua parceria com João Bosco, com quem compôs mais de uma centena de músicas, incluindo “De frente pro crime”, “O mestre sala dos mares”, “Bala com bala”, “Corsário”, “Dois pra lá, dois pra cá” e muitas outras. Em 1973, abandonou a medicina para dedicar-se exclusivamente à música. A partir da década seguinte, abriu novas parcerias. Com Maurício Tapajós, compôs “Querelas do Brasil”, gravada por Elis Regina. Assinou com Moacyr Luz a autoria de “Coração do Agreste”, tema da novela Tieta que ganhou as paradas de sucesso na interpretação de Fafá de Belém. Outro grande hit popular “Resposta ao tempo”, canção composta com Cristóvão Bastos e que integrou a trilha da série Hilda Furacão na voz de Nana Caymmi. Blanc também é autor, com Cleberson Horsth, da canção “A Viagem”, sucesso gravado pela banda Roupa Nova e que foi tema da novela com o mesmo nome.

Ao longo da carreira, lançou oito álbuns com músicas autorais. Também se aventurou no universo da literatura produzindo crônicas para o Jornal do Brasil, O Pasquim e a revista Bundas. A versatilidade se tornou uma das marcas do trabalho de Aldir como letrista. Sua facilidade de traduzir em versos sentimentos cotidianos que passeiam do lirismo à ironia permitiu a criação de versos com parceiros de estilos diversos e o casamento perfeito de melodias sinuosas com métricas poéticas exatas, como aconteceu em sua ampla obra criada com o compositor e cantor João Bosco. A destreza com a escrita rendeu ainda a publicação de três livros que passeiam entre a prosa e poesia: “Rua dos Artistas e Transversais” (2006), "Rua dos Artistas e Arredores” (1978) e “Porta de Tinturaria” (1981).

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