São Paulo, 17 (AE) - Provavelmente, os americanos colocariam essa música nas prateleiras de world music, mas talvez possam compreender melhor seu significado se lhes disserem que os índios guaranis já estavam aqui na América centenas de anos antes da chegada de espanhóis e portugueses. Mais que "música do mundo", é música do tempo, é um som inaugural.
A busca desse som já levou músicos ocidentais pops, como Peter Gabriel, Sting, Paul Simon, Stewart Coppeland e Alanis Morrisette, à áfrica, ao Paquistão, ao Brasil ou à Índia, em busca de alguma conexão com a espiritualidade da música. Alguns foram extremamente bem-sucedidos, especialmente o cantor do Pearl Jam, Eddie Vedder, no seu encontro com o paquistanês Nusrat-Fateh Ali Khan.
Muitos deles ficariam boquiabertos com o CD "Nãnde Reko Arandu". Os guaranis tocam chocalho, tambor, varetas, violão e rabeca (essa última, um derivado primitivo da razé, a rabeca que os árabes legaram dos mouros e que, em algum momento das missões jesuíticas, chegou aos índios). Mas a força do disco está na delicadeza das canções e na afinação dos corais infantis - completamente diversos dos ocidentais, sem os arranjos de agudos e graves, de baixos e tenores, de contraltos e sopranos. É tudo uma massa circular e aguda de som, que divide o espaço com intervalos longos e de timing preciso. Como um rap - Os guaranis dizem que não querem "resgatar", mas preservar sua música. Ela é viva, está exercendo suas funções comunitárias e seu poder de persuasão. Conduzida por um mestre-de- cerimônias (como no rap, um MC), que é o Xondaro - o Guardião-, a maioria das canções é comum às quatro aldeias, mas apenas uma delas executa cada música.
A exceção são as canções novas, cantadas por todos, como a primeira, "Nhanerãmoii Karai Poty", surgida recentemente em uma das aldeias. O violão pode incomodar quem procura a raiz intocada (até porque o próprio coral se basta, com os chocalhos e o tambor). Mas os próprios índios defendem a incorporação do instrumento, tocado com uma afinação exclusiva e apenas cinco cordas.
Há algo de poético também na apresentação da canção ritual guarani. É como se o espírito mais profundo da alma do seu povo só pudesse ser tocado pela voz de uma criança - usada até para os acalantos. A criança faz dormir a própria criança, como em "Mamo Teta Guireju". Os deuses parecem ter ouvido os guaranis: sua voz sobreviveu ao tempo e ao espaço. (J.M.)

mockup