'Coringa, Delírio a Dois': sequência perde peso político e social
Estreia importante da semana, inclusive em Londrina, filme é um mix de musical e trama de prisão que traz Joaquin Phoenix e Lady Gaga às telas
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quarta-feira, 02 de outubro de 2024
Estreia importante da semana, inclusive em Londrina, filme é um mix de musical e trama de prisão que traz Joaquin Phoenix e Lady Gaga às telas
Carlos Eduardo Lourenço Jorge/ Especial para a FOLHA 

Dois indivíduos dementes com uma música no coração podem encontrar amor? “Joker: Folie à Deux” reúne o príncipe palhaço do crime de Gotham City e Harley Quinn, resultando em sequência ambiciosa com grandes oscilações que acabam comprometendo em parte o resultado.
Cinco anos depois, esta continuação explora ainda mais a mente fragmentada do assassino Arthur Fleck, mas sem a visão social e política que tornou o filme original tão provocante e perturbador. Joaquin Phoenix demonstra mais uma vez sua disposição (de resto permanente) de correr riscos – neste caso, cantando ao lado de Lady Gaga, claro que muito mais habilidosa tecnicamente. Mas esta performance, que já esteve tão sintonizada com o frágil estado mental do personagem, em “Delírio a Dois” parece ainda melhor, mesmo se repleta de floreios déjà vu.
A mesma dupla que alcançou enorme sucesso de crítica (levou o |Leão de Ouro de melhor filme em Veneza 2019) e público (mais de U$ 1 bilhão de bilheteria ao redor do mundo) antes da pandemia está de volta, Todd Phillips diretor e Joaquín Phoenix no papel que lhe rendeu o Oscar. A verdade é que o intérprete poderia estar ainda melhor nesta segunda parte, na qual sua atuação mistura fragilidade, loucura, violência, o riso perturbador e exagerado que deu ao personagem, e agora com o acréscimo de dança e canto. Não há dúvida de que “Joker: Folie à Deux” é um musical, apesar de frequentes afirmações do realizador, que passou os últimos meses repetindo à imprensa que não utilizou o gênero.
Lady Gaga apenas aumentou o poder de fogo comercial desta tão aguardada sequência, embora as armadilhas musicais do filme possam arrefecer um pouco o entusiasmo antecipado.
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Não há como negar, acima de tudo, que a originalidade está nos números musicais, que prestam homenagem ao cinema e à televisão americanos, a estrelas clássicas como Judy Garland e Fred Astaire ou mesmo Sonny e Cher, mas sempre com instintos assassinos ameaçando vir à tona. Uma espécie de play list de sucesso, o sonho do personagem, que serve para examinar a mente perturbada e perigosa de Arthur Fleck e que conta com o poder de Lady Gaga e o carisma de Joaquín Phoenix. Uma exibição visual (e uma execução musical que custou quase 200 milhões), e que vem acompanhada de músicas como “Get Happy”, “For Once in My Life” e “That’s Life”.
Já vimos Phoenix cantando em um filme, interpretando Johnny Cash em “Walk the Line”. Aqui o brilhantismo de seu trabalho reside no fato de bordar o mesmo número musical, também desafinado pelas exigências do roteiro. O diretor tem explicado que tanto Phoenix quanto Gaga fizeram tudo como diretores, acompanhados por um pianista que atuou fora das câmeras, tentando manter o ritmo que estabeleceram.

CORINGA JUSTIFICADO
O problema é que este Coringa parece uma justificativa do anterior, como se o criador tivesse medo de quão longe seu personagem e sua história foram. Na primeira parte o personagem foi lido como uma vítima da desigualdade, que era a força motriz da violência na sociedade de hoje, num mundo onde a agitação social devido às diferenças econômicas era estimulada. Mas também houve outras leituras, e até a apropriação de um momento “trumpista” da história. É bom lembrar que o filme foi lançado antes da pandemia, num contexto de marchas e manifestações em diversos locais do mundo, devido à desigualdade. Depois veio a pandemia, as medidas de confinamento e as teorias da conspiração selvagens e perigosas.
Até agora estava claro que Joker havia se tornado, sem planejar, um líder anti-establishment, cujo lema era liquidar os ricos, liderando aqueles que se identificavam com aquele indivíduo extravagante e vestido de palhaço. O argumento nada mais foi do que a conversão de um personagem que passava de parasita a líder de uma revolta. Um doente mental cujas medidas econômicas do poder empresarial de
Thomas Wayne e de outros poderosos o deixam sem acesso a cuidados de saúde, emprego ou uma vida decente. Enquanto os ricos de Gotham acrescentam cada vez mais dinheiro. Uma verdadeira metáfora para a sociedade atual.
Resumo da quase opereta (algumas músicas a mais e estaríamos lá...): o filme é divertido, bem construído e com duas atuações brilhantes. Mas sentimos falta de mais leituras sobre o momento atual, de mais explicação social sobre um personagem que tanto ofereceu no primeiro episódio.


