Francelino França
De Londrina
A Mostra Zumbi dos Palmares deste ano tem um significado especial. O maior representante da arte primitivista brasileira, o baiano Waldomiro de Deus, prestigiará o evento em sua 14ª edição. Ele terá 20 obras agrupadas em sala especial.
Waldomiro de Deus é consagrado em mais de 160 exposições em vários pontos do planeta. Israel, Hollywood, Londres, Santo André, Frankfurt, Paris, Varsóvia, Piracicaba, e tantas outras cidades já aprenderam com o artista iletrado os caminhos do primitivismo. Agora Londrina poderá conhecer o espírito mágico da arte naif.
Convencionou-se chamar de primitivos os artistas não-eruditos, que preferem temas populares, principalmente do meio rural, para expressar sua arte. Quando o tema retratado é urbano, é enquadrado como arte naif (arte ingênua, em francês).
Tão irreverente como sua obra é sua vida. Fugiu de casa aos 12 anos, chegou a São Paulo como carona de um pau-de-arara. Se em 1958 existiam poucos meninos de rua em São Paulo, um deles era Waldomiro. Depois de conseguir trabalho como jardineiro na casa de um imigrante italiano, realizou as primeiras pinturas autodidaticamente. Ao expor suas obras no Viaduto do Chá, conseguiu vender duas telas para um americano e foi descoberto pelo folclorista Rossini Tavares de Lima.
O Marquês italiano Terry Della Stuffa o descobriu como artista e deu-lhe impulso para produzir mais. Rapidamente, estava nos coquetéis com a família Matarazzo, conversando animadamente com o crítico Pietro Maria Bardi. O físico e crítico de arte Mário Schemberg descreveu o trabalho de Waldomiro da seguinte forma: ‘‘A sua pintura se caracteriza sobretudo pela sua força da linha e o emprego feliz da matéria pictórica.’’
Participou da Bienal de São Paulo, em 1967. Depois dessa oportunidade sua carreira decolou. Posteriormente, realizou exposições coletivas e individuais na Europa e nos Estados Unidos. Chegou a morar na França, Itália e Israel. O ex-menino de rua conheceu várias celebridades pela Europa. ‘‘Salvador Dalí me deu um beijo surrealista, com aqueles bigodes que pareciam duas antenonas’’, relembra. Hoje, mora em Goiânia e mantém um ateliê em Osasco, São Paulo.
A obra do baiano Waldomiro de Deus se destaca pelo alegre uso da cor e da forma, no traço e na ocupação do espaço. ‘‘Desenho os mulatos e mestiços do Brasil do ano 2050’’, anuncia. Ele já produziu mais de 2 mil obras sobre folclore, céu, inferno, planetas e situações do cotidiano. Existem telas suas espalhadas em todo o mundo, sob os olhos de museus e colecionadores. Uma tela com sua assinatura pode chegar a R$ 30 mil.
Os elementos da cultura popular brasileira retratados por Waldomiro de Deus estão envoltos em alegria, sensualidade e incrível explosão de cores. Seu universo visual pode chocar, como no quadro ‘‘Nossa Senhora de Minissaia’’, mas também pode representar uma crítica social, a exemplo do quadro ‘‘Inflação Acorrentada’’.Waldomiro de Deus vai expor em Londrina durante a 14ª Mostra Zumbi dos Palmares
Mario Machado/DivulgaçãoReproduçãoWaldomiro de Deus: desenho primitivista ganha, às vezes, contextualização urbanaReproduçãoCores bem definidas embasam os temas populares do pintor

mockup