Cores e formas dos vitrais
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 31 de agosto de 1998
Simone Mattos 
Obras de arte translúcidas, que mudam suas cores de acordo com a intensidade do sol e da luz. A paixão do artista chileno Juan Márquez por esta magia, chamada vitral, o transformou numa das únicas pessoas no mundo que dominam a técnica original, desenvolvida na França da Idade Média. Ele estudou durante dez anos em Paris e atualmente mora em Curitiba.
Márquez acorda e olha para os vitrais medievais, que estão no lugar das janelas de seu quarto. Pela manhã eles são especiais, mas é no final da tarde que os vitrais adquirem uma coloração mais bonita, disse. O artista comentou que a cor dos pequenos pedaços de vidros muda radicalmente de acordo com o horário do sol, o que faz toda a diferença entre esta e as outras artes.
Fazer vitrais na Idade Média era um trabalho artesanal, que resultava em verdadeiras obras de arte. A principal diferença é o encaixe dos vidros, que era feito por um chumbo especial, preparado pelos próprios vitralistas, e que garantia resistência e qualidade aos vitrais.
Atualmente, utiliza-se resina, mas o material é vulnerável ao sol, chuva e mudanças de temperatura. Por isso os vitrais modernos só podem ser instalados em ambientes internos, explicou.
Vitrais originais da Idade Média podem ser vistos em vários lugares da Europa, principalmente na França. É o caso da Catedral de Notre Dame, de Sacre Couer e de Chatres. São vitrais resistentes, que sobreviveram a duas guerras.
Outra diferença entre o vitral moderno e o medieval é a coloração. Hoje os vidros podem ser pintados à mão, mas na Idade Média apenas os vidros coloridos na fabricação eram utilizados nas composições.
Esta característica gerou uma crise, por volta do século 16, que fez com que a técnica desaparecesse. Na época do Renascimento, os vitralistas europeus quiseram aproximar seus trabalhos da pintura, transformando-os em obras de arte. Isto provocou uma crise existencial nos vitralistas, contou o chileno.
Somente no início do século 20 é que a técnica medieval foi redescoberta, sendo mantida sem o uso de pinturas superficiais, como em sua origem. Os americanos tentaram industrializar o vitral, mas fracassaram, comentou.
Hoje, Márquez atende a encomendas de igrejas, empresas e residências, que utilizam os vitrais medievais na decoração. O preço de uma obra de tamanho médio varia entre R$ 650,00 e R$ 1.600,00. Atualmente, ele está iniciando um vitral que deverá lhe custar três anos de trabalho. É um painel de 600 metros quadrados, retratando a vida de Jesus Cristo, para uma igreja de Foz do Iguaçu
Márquez é cineasta e publicitário. Ele descobriu a arte dos vitrais fazendo uma pesquisa e reportagem sobre a técnica, há 20 anos. Depois disto, passou uma década estudando a arte medieval dos vitrais, em Paris.
O artista explicou que não existe teoria sobre a técnica original, transmitida boca-a-boca e na prática. Temo que, por isso, ela acabe se perdendo. Pensando nisto, Márquez pretende dar aulas sobre o tema, em Curitiba. Gostaria de formar uma nova geração de vitralistas aqui, confessou.


