Curitiba - Não foi uma unanimidade. Quando a filial brasileira da Escola do Teatro Bolshoi foi inaugurada em Joiville (SC), há dois anos, não faltou quem criticasse a franquia russa. Com um corpo docente composto muito mais por professores brasileiros do que por profissionais importados de Moscou, houve quem questionasse o verdadeiro sentido da instituição. Ou ainda perguntasse como a técnica do Bolshoi – uma das mais severas do mundo – seria aplicada em território verde-amarelo que, convenhamos, não ostenta o melhor mercado de trabalho para aspirantes e profissionais da dança.
A mostra do que os alunos da Escola têm a dizer (ou a fazer) aconteceu no último final de semana, na primeira apresentação da Escola do Teatro Bolshoi no Brasil para o público curitibano. O coreógrafo russo Vladimir Vasiliev veio conferir de perto o resultado dos trabalhos desenvolvidos na filial. Vasiliev, ex-primeiro solista do Balé Bolshoi de Moscou, está no Rio de Janeiro, comandando os primeiros ensaios do balé Romeu e Julieta, no Teatro Municipal.
Em duas únicas apresentações (uma fechada para os patrocinadores), a escola trouxe à Capital a ‘‘Mostra Didática da Escola Bolshoi’’. O espetáculo empresta alguns recursos cênicos do teatro para fazer um passeio lúdico sobre a história da dança. Para isso, subiram ao palco 45 alunos, entre 9 e 11 anos de idade. Eles apresentaram parte do repertório clássico da dança, como pas-de-trois do ‘‘Quebra Nozes’’ e trechos do ‘‘Lago dos Cisnes’’.
Encantado com o resultado que a escola brasileira apresentou, Vasiliev disse, em entrevista para a Folha, que não esperava que o espetáculo causasse tanto impacto. ‘‘Enquanto assistia prestava atenção nos olhos das crianças, elas estavam realmente envolvidas com o que estavam fazendo’’, disse. Para o coreógrafo esse envolvimento é o principal sentido da dança. ‘‘Se os alunos estão conseguindo fazer isso agora, com certeza entenderam o princípio da arte’’, completou.
Considerado pela crítica especializada como o ‘‘bailarino do século’’, Vasiliev escolhe as palavras para explicar o significado da dança. ‘‘Nosso corpo é uma orquestra e todos os instrumentos devem ser executados juntos, com a mesma entonação. Cabe ao artista escolher que grupo de instrumentos ele quer que apareça mais’’.
Quanto à forma como a técnica russa está sendo aplicada no Brasil, ele considera que a dança não diz respeito só a técnica. ‘‘Quando comecei a trabalhar no Teatro Municipal do Rio de Janeiro, vi as bailarinas brasileiras fazendo sete piruetas em ponta. Isso é uma técnica maravilhosa, que nem todas as bailarinas do Bolshoi têm, mas não significa que elas sejam melhores, significa que elas tocam bem um instrumento da orquestra’’, compara.
Depois de assistir à apresentação da ‘‘Mostra Didática do Teatro Bolshoi’’, Vasiliev retornou ao Rio, onde dá continuidade aos ensaios de ‘‘Romeu e Julieta’’. O coreógrafo adianta que a versão que ele está criando para o clássico será uma releitura da montagem de Serge Prokofiev, que estreou na década de 50. ‘‘O que mais deverá chamar a atenção do público é que a ação do espetáculo ocorre em dois planos e a orquestra ocupa o centro do palco, para reforçar a união entre a audição e a visão’’. Além disso, revela, a cenografia da peça terá recursos multimídia. O espetáculo terá uma temporada de sete apresentações, primeiramente no Rio de Janeiro. Ainda não foi definida a sua turnê.

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