COREOGRAFIA É UMA VITRINE DE EGOS
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 30 de maio de 2001
Katia Michelle De Londrina 
Quem leu o programa do espetáculo Kisser Barbie, da coreógrafa espanhola Sol Picó, antes de assisti-lo, deve ter se assustado com o que encontrou no palco. O texto anunciava um trabalho intimista e provocativo. Uma alusão aos temores do ser humano. Mas não é isso que o espetáculo, uma vitrine de egos, propõe. Uma sequência de movimentos mal elaborados mostram que o único medo pertinente a que a peça se refere pode ser o da própria coreógrafa de que os tomates entregues para a platéia no início do espetáculo tenham realmente um destino nada acolhedor.
Ao entrar no palco, Sol está apropriadamente vestida com uma armadura e belos saltos vermelhos, que conferem à personagem um aspecto decadente das mulheres de Almodóvar (que o cineasta perdõe a referência). Entrega tomates ao público numa tentativa de provocação, não fosse a proteção da armadura e o ar fragilizado da personagem. No palco, o ator Joan Manrique (completamente dispensável no contexto) apóia os movimentos da coreógrafa, mais parecendo um contra-regra promovido.
Manrique, no entanto, mostra mais presença cênica do que a própria Sol Picó. É ele quem se atreve, na platéia, a se candidatar ao pedido da personagem de dançar com ela. É ele também quem responde o inusitado sim à solicitação de se queimarem (sim, com fogo) juntos no palco, num dos (poucos) bons momentos do espetáculo. O que ocorre é que Sol Picó, que além de dançar, assina a coreografia de Kisser Barbie, explorou com exaustão todos os recursos que propõe. Não dá fôlego para que os movimentos possam ser apreciados dentro de um contexto. E é exatamente esse contexto que falta ao espetáculo, conferindo um resuultado completamente dispensável.
A peça se transforma em um exercício individual. Algumas cenas, como que a que Sol deixa cair a armadura içada por um cabo de aço são cômicos, mas apenas isso. O espetáculo é visual. Não toca o público, não comunica e passa. De concreto fica apenas o vermelho dos tomates nas mãos de alguns espectadores. Mas parece que o festival mostrou essa tendência teatral. Os espetáculos, em geral, apresentaram muito mais imagem do que conteúdo. Se o resultado pode ser belo por um lado, por outro corre-se o risco de se perder na memória das imagens tal qual vento guardado numa caixa. É o que acontecesse em Kisser Barbie.


