Coreógrafa faz laboratório de movimentos
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 15 de outubro de 2002
Inês Bogéa<br> Agência Folha 
''Na sua vida cotidiana você está cercado de informações da natureza mais diversa - mas o que é mesmo informação? Como se interpreta o acontecimento da vida? Como se experimenta a realidade?''
Essas perguntas da coreógrafa Lynda Gaudreau integram-se agora às propostas do FID (Fórum Internacional de Dança), que acontece em Minas Gearis. Além dos dois grupos internacionais - Lynda Gaudreau/Cia. de Brune e Jérôme Bel/R.B.-, o FID hospeda o ''Território Minas Telemig Celular 2002'' (programa de apoio a criações) e a ''Extensão Brasil'' (apresentação mensal de grupos brasileiros, até 2003).
Um dos espetáculos mais esperados é o da canadense Gaudreau, ''Document 3'', que estréia hoje. A companhia já apresentara no próprio FID (em 2000) a primeira parte desta grande ''Enciclopoedia'', um laboratório de movimentos. Iniciado em 1999 com ''Document 1'', o projeto não tem data para terminar, como explicou Gaudreau, em entrevista por e-mail. ''A idéia é apresentar o trabalho de outros artistas no meu próprio trabalho, artistas que considero importantes. Gostaria de compartilhar esse interesse por eles com minha platéia.''
Em ''Document 1'', Gaudreau trabalhava partes do corpo através de fragmentos do cotidiano e de trechos coreográficos de outros artistas (como Jonathan Burrows, Meg Stuart ou Benoit Lachambre). Tudo era material para explorar o movimento de forma sucinta e classificatória, que remetia a uma enciclopédia. Agora, em ''Document 3'', ela pesquisa o que se dá no intervalo entre duas coisas, no instante que precede a ação.
O brasileiro Cristian Duarte participa do trabalho. Duarte esteve na Bélgica, com o auxílio de uma bolsa Capes e foi lá que encontrou Gaudreau. ''Ele entrou intuitivamente no meu trabalho, e trouxe algo que eu estava procurando há muito tempo'', diz a coreógrafa. ''É um bailarino criativo, que nos surpreende - e isso é o motor da criação. É um prazer trabalhar com ele.'' Gaudreau se define como uma anatomista do movimento, ou arquiteta do corpo humano. ''Antes, estava trabalhando com unidades completas de informação; agora, estou mais interessada em pedaços. Tento trabalhar com o menos possível, mas sempre sinto que é demais. Em certo sentido, quero que a platéia coreografe o que está vendo.''
Em outros termos, o foco recai sobre nossa percepção. ''Quando digo que estou interessada em pedaços de informação, quero dizer que me dou conta do quanto completamos ou apagamos o que nos chega. O que você vê? Como isto faz sentido? O que é informação? Isto existe?'' As ambições por trás de tais perguntas não são pequenas. Não significam menos do que a tentativa de elucidar o que chamamos, com simplicidade, de ''vida''.
Não é de estranhar, portanto, que a dança se alie a outras artes, nessa aventura. ''Minha pesquisa é sempre um trabalho de coreografia, mas envolve outras linguagens. Coreografar lida com a idéia de movimento e isso é muito amplo, não se limita ao movimento do corpo. Muitas formas de arte trabalham com a mesma questão.'' Com Gaudreau, a dança é mais e menos do que se pensa: é uma perspectiva, um horizonte novo, de onde pensar tudo na vida, inclusive a dança.
Document 3 - com Lynda Godreau. Em cartaz, hoje e amanhã, no Teatro Sesiminas (rua Padre Marinho, 60, Santa Efigênia, Minas Gerais. Programação completa no site oficial: www.fid.com.br (o festival acontece até o próximo dia 26 de outubro).


