A trama poderia se passar em qualquer cidade, mas Buenos Aires, na Argentina, conferiu um toque especial ao romance ‘‘Cordilheira’’, de Daniel Galera, que a Companhia das Letras lançou recentemente. A capital argentina é o destino da jovem escritora brasileira Anita van der Goltz Vianna, criada por Galera para apresentar um grupo de personagens cuja obra se confunde com a própria trajetória.
  ‘‘Eu precisava de uma cidade que levasse a sério a literatura’’, conta Galera, que precisou ambientar sua história em Buenos Aires para que seu livro participasse da coleção ‘‘Amores Expressos’’, em que autores brasileiros escrevem histórias de amor que se passam em diversas cidades do mundo.
  ‘‘Cordilheira’’, portanto, transformou-se no primeiro volume de uma série que poderá contar com 17. ‘‘Buenos Aires tem uma tradição literária, assim como Paris, ao contrário de Nova Iorque e São Paulo, cidades nas quais minha história não poderia acontecer.’’ Anita é uma jovem talentosa, festejada como uma das grandes promessas da literatura brasileira, mas enfrenta momentos turbulentos na vida pessoal: além de sofrer com o final de um relacionamento amoroso, ela vive ainda sob o impacto do suicídio de uma amiga. Assim, acompanhar o lançamento da tradução argentina de seu romance se torna um alívio, quase uma necessidade.
  Em Buenos Aires, porém, a trajetória de Anita transforma-se, especialmente quando entra em contato com um misterioso fã argentino que a introduz em um grupo não menos estranho de escritores, cuja vida pessoal se confunde com a ficção, tornando uma e outra bizarras.
  Galera oferece uma pista sobre as intenções desse grupo em uma das epígrafes do livro – escritor que decidiu vivenciar suas histórias em vez de escrevê-las, o guatemalteco Jupiter Irrisari é autor da frase escolhida pelo brasileiro: ‘‘Imaginar o inexistente é um ato de paixão pela vida, mas viver o imaginado requer um amor duradouro e, sobretudo, um compromisso.’’
  Esse é o credo das pessoas que passam a cercar Anita, induzida a também derrubar a fronteira entre literatura e realidade. ‘‘A leitura de autores como Roberto Bolaño e Javier Marias me incentivou a buscar também esse caminho, mas sem jamais procurar explicações convincentes ou conclusivas’’, explica Galera, que tornou seu relato em um interessante jogo entre ficção e veracidade.
  Afinal, se as descrições detalhadas de locais e pessoas induzem a acreditar em uma descrição fiel do real, as atitudes bizarras e inesperadas do grupo argentino conferem pontos preciosos para a criação. E é nesse jogo em que não torce para nenhum dos lados que Galera exercita sua escrita fluente, que não perde o prumo mesmo com digressões ou revisões de perspectivas. A paixão contida de suas palavras também revela essa tentativa de equilíbrio entre ficção e não-ficção, conseguindo uma resposta imediata do leitor.
  Daniel Galera viveu durante um mês de 2007 na Argentina, conhecendo Buenos Aires e Ushuaia, no extremo sul, região, aliás, que confessa ter sido mais inspiradora. ‘‘Fiquei realmente surpreendido com Ushuaia, lá senti grande força para continuar o livro.’’
  Em seus primeiros dias em Buenos Aires, o escritor cometeu o que considerou um erro: com a ânsia de um turista, tentou descobrir tudo em pouco tempo. ‘‘Como eu preciso transformar a cidade em cenário da história, acreditei ser necessário percorrê-la por inteiro’’, comenta ele, que hoje vive em Garopaba, em Santa Catarina. ‘‘Logo percebi que corria o risco de criar uma narrativa puramente instrumental, justificando minha presença lá. Assim, já na segunda semana, comecei a me relacionar com Buenos Aires de forma mais intuitiva e improvisada, ciente de que essa seria uma experiência mais impactante.’’
  A decisão influenciou diretamente na narrativa, na qual não se encontram descrições de lugares tão conhecidos na capital argentina, como a enorme avenida 9 de Julio. Ao contrário: ‘‘Cordilheira’’ privilegia bares e cafés, oferecendo uma descrição mais convincente do cotidiano.

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