São Paulo, 05 (AE) - Ele queria fazer um filme sobre modos diferentes de encarar o amor: amor romântico, sensual, familiar, amor próprio. Fez "Corações Apaixonados". Vale prestar atenção no que o diretor Willard Carroll, de carreira consolidada na TV e que já trabalhou com Francis Ford Coppola nos Estúdios Zoetrope, tem a dizer. É uma das boas estréias de amanhã (06). O filme comporta um subtítulo: "Vivendo e Amando em Los Angeles".
No começo, o espectador pode até pensar que está vendo uma nova versão de "Short Cuts - Cenas da Vida", de Robert Altman. Carroll segue uma linha que Altman não inventou, pois antes dele, Luis Buñuel, em "O Discreto Charme da Burguesia", já fez a mesma coisa. Mas Altman, de "Nashville" a "Short Cuts", sabe, como poucos, soltar a câmera entre numerosos personagens. Carroll faz o mesmo. São várias histórias cruzadas em Los Angeles. Várias histórias de amor e desamor. Sobre encontrar o amor, sobre manter o amor, sobre a dor de perdê-lo. Sobre "abrir portas para a comunicação e não fechá-las", como diz o diretor.
Entre outras: a da mãe que consegue finalmente comunicar-se com o filho ao reencontrá-lo quase morto, num leito de hospital, por causa da aids; a do casal de meia-idade cuja relação esfriou e agora ela cobra do marido um caso que ele teve há 25 anos; a da mulher com medo de amar, após uma decepção sentimental; a da garota de comportamento espalhafatoso que dá em cima de um rapaz introvertido; a da mulher que trai o marido sem prometer nada, exceto sensações físicas, ao amante que quer mais dela; a do homem que vive contando histórias bizarras de abandono em mesas de bar.
Esse tipo de tramas cruzadas não é inédito no cinema, mas Carroll, que também é o roteirista, além de habilidade para relacionar as várias histórias, revela que tem noção de timing e sabe como dirigir atores. Dos veteranos Sean Connery, Gena Rowlands e Ellen Burstyn até Jay Mohr (que também está em Vamos Nessa) e Angelina Jolie (filha de Jon Voight), passando por Madeleine Stowe (ressurgindo após anos de ausência), não há um só ator que não esteja adequado ao seu personagem. Carroll é tão bom condutor de atores que até Ryan Philippe, que exagerava nas caras e bocas no "Ligações Perigosas" teen, "Segundas Intenções", revela-se no tom justo e tem momentos ótimos como o rapaz que esconde um segredo.
São histórias de amores em tempos de aids e sobre como o hedonismo ainda é possível, no sentido filosófico de que toda bem-aventurança humana só é possível no prazer. É bom que, de vez em quando, alguém venha nos dizer essas coisas, já que a aids tem sido o subterfúgio ou a muleta em que os moralistas se apóiam para suas reflexões sombrias. Mas o melhor de "Corações Apaixonados", o que realmente define Carroll como um talento a ser seguido, é o desfecho, quando todos os nós da narrativa são desatados e tudo passa a fazer sentido. É um final bonito e, além do mais, para cima, daqueles que fazem o espectador sair do cinema pensando que a vida, afinal, como diz Benigni (com a ajuda de Trotski), é bela.
Indicado sete vezes para o Oscar (e cinco vezes vencedor do prêmio da academia), o compositor John Barry cria uma bela partitura jazzística. Mas uma atração especial de "Corações Apaixonados", sobretudo para o espectador brasileiro, são as músicas de bossa nova que permeiam o relato.

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