Cora Coralina sempre
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quinta-feira, 03 de janeiro de 2002
Nelson Sato 
Se viva fosse, a poeta Cora Coralina (1889-1985) estaria inconsolável nesta virada de ano, lamentando os estragos provocados pela chuva em sua cidade natal. Recém-tombada como patrimônio cultural da humanidade pela Unesco, Goiás foi arrasada pelas enchentes no começo da semana com as águas comprometendo edificações históricas e o próprio Museu criado em homenagem à escritora.
A cidade, distante 136 quilômetros de Goiânia, foi tema recorrente em sua obra. Não por acaso, a coletânea de inéditos que acaba de chegar às livrarias chama-se Villa Boa de Goyaz, antigo nome do município, do tempo em que ele era a capital do Estado. No livro, Coralina canta em prosa e verso sua paixão pela terra mesclando observações líricas e reminiscências da infância e adolescência.
Na Casa Velha os quartos têm nome: varandinha, quarto escuro, quarto de oratório, alcova da vó Fiinha, sobradão, sobradinho, quarto da Felizarda. O quarto donde escrevo chama-se sobradinho anota ela na crônica Maravilhas da Casa Velha da Ponte. A poeta fala das janelas coloniais, dos meninos de rua, dos personagens pitorescos, das ruas que mudaram de nome e da linguagem impressa em cada toque dos diversos sinos existentes na cidade.
A filha da autora, Vicência Bretas Tahan, fez a seleção dos textos. É a primeira compilação de inéditos a sair do material conservado pelos parentes da escritora desde sua morte em 1985. Outros deverão ser publicados gradualmente pela editora Global, paralelamemte à reedição de seus antigos títulos.
Na última temporada, o catálogo foi restaurado com a volta às prateleiras dos volumes Estórias da Casa Velha da Ponte, O Tesouro da Casa Velha da Ponte, Meu Livro de Cordel e Vintém de Cobre Meias Confissões de Aninha. O célebre elogio de Carlos Drummond de Andrade, que tornou Cora Coralina conhecida em todo o país, consta deste último.
O poeta tomou contato com o livro de estréia da autora, Poemas dos Becos de Goiás e Estórias Mais, em 1979. Comovido, escreveu um artigo entusiasmado no Jornal do Brasil. O livro fora publicado em 1965, quando ela já tinha 67 anos. Alheia a correntes literárias, Coralina criou um estilo pessoal transportando para o papel a tradição oral dos contadores de histórias. O cotidiano, os causos, a velha Goiás e as inquietações humanas sempre forneceram matéria-prima para sua sensibidade. Na estrada que é Cora Coralina passam o Brasil velho e o atual, passam as crianças e os miseráveis de hoje notou Drummond.
Para os estudiosos de sua obra, a poeta teria deixando um registro histórico-social do século 20. A coletânea Villa Boa de Goyaz ilustra a tese apresentando singelos retratos da região do serrado do Centro-Oeste brasileiro.
Villa Boa de Goyaz. Coletânea de inéditos de Cora Coralina.
Meu Livro de Cordel. Reedição.
Vintém de Cobre Meias Confissões de Aninha. Reedição.
Editora Global. Tel. (11) 3277-7999. E-mail: [email protected]


