Cor em foco
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 05 de outubro de 2012
Geraldo Bessa <br> TV Press 
O pano de fundo de ''Lado a Lado'', atual novela das seis, remete a um momento de grandes transformações no Brasil. No início do Século XX, o país ainda se adaptava ao fim da monarquia e, principalmente, ao fim da escravidão. É um tema inédito em novelas e que despertou o interesse de Lázaro Ramos, um dos atores mais premiados de sua geração e intérprete do barbeiro Zé Maria.
Para Lázaro, a novela aborda a origem da segregação do negro livre na sociedade brasileira, algo que sofreu acentuada diminuição nos últimos anos, mas que ainda se faz presente tanto na ficção quanto na realidade. ''Espero que a trama possa levar as pessoas a uma reflexão. A televisão demorou muito para colocar atores negros em personagens de destaque. O preconceito ainda existe, mas o estereótipo do negro que só faz papel de empregado está em xeque. É uma mudança cultural e símbolo do Brasil atual'', analisa o ator, um dos protagonistas da trama, onde atua ao lado de Camila Pitanga.
Lázaro, Camila e mais alguns poucos atores negros da nova geração, como Taís Araújo, Sheron Menezes e Rafael Zulu, são os porta-vozes dessa visão mais ampla sobre o negro nas telenovelas atuais. Algo bem diferente do que acontecia nos primórdios da teledramaturgia.
Em novelas de época, intérpretes negros só apareciam como escravos, e em tramas contemporâneas, eram limitados a darem vida a empregados, copeiros, seguranças e motoristas. ''Cheguei a recusar convites que pudessem me limitar apenas ao papel de serviçal. Luto desde sempre pelo fim do preconceito. A presença do movimento negro é fundamental e relevante para a virada que, infelizmente, está ocorrendo a passos bem lentos'', acredita Zezé Motta, intérprete de personagens que fugiram do padrão do que era oferecido a atrizes negras em tramas globais, como ''Corpo a Corpo'' e ''A Próxima Vítima'', e que atualmente vive a simpática Dadá de ''Rebelde'', da Record.
Além de Zezé, mesmo com personagens secundários, outros nomes chegaram a ultrapassar a barreira do preconceito chamando a atenção do público e da crítica. Caso de Isaura Bruno - na pele de Mamãe Dolores, na clássica ''O Direito de Nascer'', exibida em 1964 pela extinta Tupi -, Grande Otelo, Ruth de Souza, Chica Xavier, Neuza Borges, Jacira Silva, Nelson Xavier, Tony Tornado e Milton Gonçalves. Este último, inclusive, é o protagonista de um acontecimento importante na história dos negros na tevê. Cansado de se repetir em tipos subalternos, Milton pediu ao falecido autor Dias Gomes um personagem diferente dos clichês que vinha interpretando em novelas.
A resposta veio na mítica ''Pecado Capital'', de 1975, escrita por Janete Clair - mulher de Dias Gomes -, onde Milton deu vida a Percival, um psiquiatra culto e refinado. ''Embora tenhamos conquistado papéis mais diversificados, ainda somos poucos! Só existem quatro ou cinco negros em uma mesma novela. Parece cota! 'Lado a Lado' é uma exceção pelo período que retrata'', avalia Milton, que atua na novela na pele do barbeiro Afonso, pai de Isabel, de Camila Pitanga, e chefe de Zé Maria, de Lázaro Ramos.
A repetição dos principais atores negros em papéis de destaque é uma constante. Milton, Lázaro e Camila já atuaram no mesmo núcleo em ''Insensato Coração'', de 2011. Entre as típicas mocinhas de novelas, ao lado de Camila estão apenas Taís Araújo e Sheron Menezes. Taís foi descoberta na extinta Manchete ao mostrar sensualidade como a protagonista de ''Xica da Silva'', de 1997. Transferiu-se para a Globo e depois de papéis medianos, ganhou a personagem principal de ''Da Cor do Pecado'', de 2004, onde deu vida à sensível Preta, primeira protagonista negra de uma novela global. ''Sou de uma geração de atores negros que vêm se destacando. A repercussão dos meus últimos trabalhos me emociona. Muitas meninas negras me abordam nas ruas, é quando vejo que me tornei uma referência para elas. Não encaro isso como um peso, mas como uma responsabilidade'', empolga-se Taís.


