Francis Ford Coppola, 70 anos. Rebelde, independente como sempre. Continua o mesmo, muito bem humorado, bonachão. Na aparência não tem nada do mito em que se transformou. Fez história em Cannes: Palmas de Ouro para ''A Conversação'' (1974) e ''Apocalypse Now'' (79). Ontem por aqui foi dia só dele. Seu filme mais recente, ''Tetro'', passou ao largo da competição e da lista das chamadas sessões especiais. O festival propôs a ele uma jornada oficial de gala, tapete vermelho, smoking, ritual. O diretor considerou tudo isso inadequado ao espírito do filme, extremamente pessoal. Então veio o convite para que fizesse a abertura oficial da Quinzena dos Realizadores, espécie de templo paralelo para culto rigoroso ao cinema de autor e histórica plataforma de lançamento e projeção mundial de novos talentos.
Resultado: grande parte dos jornalistas que cumprem religiosamente o dever de casa, assistindo com prioridade os filmes da competição pela Palma, migrou bem cedo para o Palais Stéphanie, bela e charmosa sala da Quinzena. E ali teve direito a menu completo: além da pré-estréia mundial do filme, Coppola recebeu pessoalmente os aplausos e conversou longamente com a platéia. Melhor impossível.
''Tetro'', inteiramente filmado na Argentina, com recursos de produção local e apresentado como filme argentino independente, coloca em cena uma família de origem italiana, na qual o talento é dividido com rancores e segredos. Uma história de ciúmes familiares, de irmãos, de sangue. Ângelo e Bennie (Vincent Gallo e Alden Ehrenreich) são filhos do famoso Carlo Tetrocini (Klaus Maria Brandauer), regente de orquestra tão talentoso quanto arrogante e cruel. Amargurado, Ângelo deixou a família há dez anos e foi viver na Argentina natal do pai para se tornar escritor. Mudou o nome para Tetro. E não mais deu sinal de existir. Vive com Miranda (Maribel Verdu) no bairro boêmio de La Boca. E fica furioso quando o irmão caçula, Bennie, chega para visitá-lo. Velhas lembranças, velhos traumas e contas pendentes ressurgem.
Filmado em widescreen e em preto e branco, entremeado com alguns flashbacks e sequências de balé em cores inspiradas no filme ''Contos de Hoffman'', de Michael Powell, ''Tetro'' é às vezes excessivo em sua dramaturgia quase operística, abusivo na hipertrofia de composição formal deslumbrante, um manancial permanente de imagens preciosas e perfeccionistas. Pode-se dizer que todos os planos do filme, da iluminação ao enquadramento, foram pensados com extremado apuro estético. E em vídeo de alta definição, é importante acrescentar. Formalmente é um luxo, pura estesia, como se quem estivesse no comando desta autoria fosse um febril debutante. Discutível em alguns desdobramentos excedentes, ''Tetro'' é outro grande momento de criação de Francis Ford Coppola. Se competindo pela Palma, na certa incomodaria muito estes nove jurados.
Na conversa que se seguiu à exibição, o diretor e os atores Maribel Verdu e Alden Ehrenheich falaram sobre o filme e como foi trabalhar na Argentina. Perguntado com insistência sobre as muitas ''coincidências'' entre personagens do filme e de sua própria família, um enigmático Coppola respondeu e não respondeu: ''Nada desta história que está na tela aconteceu, mas é tudo verdade...''

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