Copiarás o arquivo do próximo?
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sábado, 21 de abril de 2012
Rafael Ceribelli <br> Reportagem Local 
O Sábado de Aleluia e o domingo de Páscoa não foram as únicas datas religiosas que aconteceram no fim de semana passado: a data também foi marcada pelo primeiro feriado oficial na história da Igreja do Kopimismo - no original sueco Kopimistsamfundet, que significa ''me copie'' - seita que acabou reconhecida como religião pelo governo da Suécia no final do ano passado.
Fundada pelo estudante de filosofia e messias Isak Gerson - que foi 'iluminado' com apenas 19 anos - os preceitos para seguir a nova crença são simples: é dever de todo kopimista copiar e compartilhar conhecimento através da internet. Adotando os comandos Ctrl+C e Ctrl+V (na informática, os famosos 'copiar e colar') como símbolos sagrados, o Kopimismo tem como dever moral a livre distribuição e propagação irrestrita de conhecimento, e se opõe a toda forma de monopolização ou de direitos autorais: músicas, livros, filmes, programas de TV e softwares devem ser compartilhados mundialmente, de graça, através da internet. ''Em nossa crença, a comunicação é sagrada'', afirma o site oficial (kopimistsamfundet.us).
O que começou como uma brincadeira entre amigos já ganhou adeptos e força política - hoje, o Kopimismo tem sedes oficiais e milhares de seguidores em mais de 20 países, entre eles Canadá, Itália, EUA e Reino Unido.
Seja em forma de religião ou como parte de movimentos neo-anarquistas, não existe dúvida: os piratas estão entre nós. Longe de ser uma filosofia inédita, a Igreja do Kopimismo segue a onda de outros grupos virtuais como Pirate Cinema e The League of Noble Peers, que também endossam o coro de ''livre compartilhamento'' no universo online.
''Eu baixo filmes, séries, games, livros e histórias em quadrinhos'', admite o artista plástico João Fábio da Silva, favorável a esse tipo de compartilhamento irrestrito. ''Em uma visão utópica, acredito que todos os bens culturais, sejam eles de qual fonte forem, precisam ser gratuitos'', afirma João, refletindo sobre uma nova ordem de mercado, em que o artista pode ganhar dinheiro sem contar, exclusivamente, com a venda de seu produto físico. ''Acho que já estamos caminhando para diferentes soluções que contornam este problema financeiro, e para onde todas as partes ficam felizes'', declara.
Oceano de possibilidades
Em um debate realizado no mês passado, na Câmara dos Deputados, sobre o combate à pirataria, a ministra da Cultura Ana de Hollanda foi enfática: sem distinguir o comércio ilegal do compartilhamento online, ela afirmou que a distribuição irrestrita, através da internet, atingiu níveis alarmantes, e que pode ''acabar com a produção cultural nacional''.
Mas esta configuração de mercado também possibilita novas oportunidades. ''O discurso antigamente era de que, com o download, o artista não ia conseguir mais vender discos e ficaria sem ganhar dinheiro. Mas, hoje, o que nós observamos são bandas independentes vendendo discos e lotando shows'', afirma o músico Diogo Hissamoto, baterista e percussionista da banda londrinense Fabulous Bandits.
''A internet ajuda muito. Nós estamos começando uma turnê nacional junto com o músico americano Willie Heath Neal, e isso só foi possível porque compartilhamos nossas músicas, e baixamos as dele'', aponta Diogo, indicando que a quantidade e variedade musical disponibilizada na internet é imensa, o que possibilitaria o reconhecimento de bandas de diversos gêneros. ''Todo mundo que eu conheço afirma que não é mais a venda do disco que entra na conta do músico, mas sim a bilheteria dos shows. Quanto mais gente baixar, compartilhar e conhecer novos sons, melhor'', completa.
Visibilidade, mas sem lucro
''É inevitável. Não tem retorno. As galinhas dos ovos de ouro estão acabando, e as grandes produtoras culturais vão ter que se adaptar ao digital'', reflete o jornalista e escritor Cláudio Tognolli, pioneiro na editoração online com o seu livro multimídia ''Balenciaga Torres & Os Corações Pelludos'' (2010) - primeiro v-book do Brasil a ser lançado, gratuitamente, pela internet. ''Nunca tive nenhuma expectativa de que a obra fosse um dia lida pelo grande público. Eu pensava: quem é que vai se interessar pelo meu livro, em época de A Cabana e de Harry Potter?'', relembra Tognolli. Quase dois anos após o lançamento, o v-book já foi baixado mais de um milhão de vezes pelo site oficial.
O problema é que tanto sucesso não se reflete no bolso do autor. ''Na internet você bate recordes de acessos, mas eles ainda não são remunerados. Nunca vi nenhum centavo com o 'Balenciaga'. Na verdade, até perdi dinheiro com ele'', relembra Tognolli, rindo. ''Por outro lado, tenho oito livros publicados, e nunca ganhei dinheiro com literatura até lançar a biografia do Lobão ('50 Anos a Mil', que vendeu 175 mil cópias)''.
Conectado às novas tendências, o jornalista hoje também é um dos colaboradores do jornal virtual Brasil247 (brasil247.com), formatado especialmente para tablets e e-readers. ''O cidadão que quiser escrever na internet ainda não vai conseguir se sustentar financeiramente só com isso. Mas, em um futuro próximo, essa situação pode mudar'', analisa Tognolli, definindo a tendência como irreversível. ''Hoje, colocar seu texto na web é igual colocar uma mensagem em uma garrafa e jogar no oceano. Algum dia, alguém pode ler, gostar e passar para frente.''



